literatura


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guache s/ moleskine grande
 

Nada dói mais, nada é mais abissal que o vento abrasador da loucura. Ela vive uma terrível subjetividade. Em suas vísceras surtia a crise aversiva, suspeitosa, desesperada. A sua vocação era o subterrâneo, parúsia de sustos e dor.

Pensar dói. O cotidiano fere quando se sabe ser de alturas onde asa alguma cruzou e se conhece abismos onde pé algum jamais se extraviou. É preciso não ter nervos, ter apenas um ventre feliz.

Loucura não enquadra em tempo, história e sociedade. É: desdobrar, demolir, dezarrazoar, anular, dissolver, desbaratar a dialética e a verdade, sem sujeito, a soçobrar a ordem do jogo do acaso, de forças diferentes e intensivas, máscaras de desrazão.

Flutuações do de fora escapam, transbordam, quase um véu de arte, da interpretação da vida e dos valores. Desordem informe, desarticulada, feia, burra, o vazio ressonante da potência de um gesto.

E a intenção era ser humilde e doce de coraçãoQue malogro!

Ser ou ter a vida que se leva, é, torna-se
Ter, o fruto do trabalho subordinado
Ser, o fruto do trabalho marginalizado

Valores de época, espaço, espécie?
Princípios perdidos na mídia, distraídos
Lembrados a alto preço, a dor incalculável

Espírito, no fundo, restaurado, cego, traído
Amante, luzidio, à espera estéril, séria
Ser, ter, compreender: a alma desperta transforma-se!

A noite é escura

E o caminho é, por vezes, espinhoso

Mas com um gatinho carinhoso

de alma pura de companhia



Não há por que não sentir alegria

Tenho-te no sonho e no devaneio

Ah…o que te proponho…

É muito mais que um mero vaguear…



A distância é meio estranha

Priva-me de querências

Nem expressar tenho a manha



Do substrato de tua essência

Essa façanha que alimenta

Toda minha experiência

Sutilezas do olhar

Que me dava de presente

Todo com um brilho estelar

E um juízo crítico ausente

 

Só um momento do cotidiano

Uma alegria, um encontro com papai

A lembrança que marcará o ano

E me cuidará como a um bonsai

 

Recheio luminoso do canto vazio

Da mente, que quase se perdeu, por
um fio

Mas pôde rodear-se de intenções

A valerem mais que as até boas
ações


Meu corpo é uma morada
Uma casa sem conceitos
Pro espírito que pouco sabe

Na casa ele se faz, livre
Numa plenitude divina
Da limitada impermanência

 

 

Comer, dormir, exceler

Preparado para morrer

Azar, depois, que seja

 

Estica rede benfazeja

Anos, anos, anos,década

Lá no início uma quebra

 

Não ficou quem iria dizer

Isso ou aquilo outro há a fazer

Depois quem foi o tal

 

A garantir rígidas regras

Sob mudos movimentos

Excluindo meus tormentos?

 

 
Dói imagem, dói tormento

Medo sinto, desalento

Estrutura manhosa corroída

Sistema de indagações – possuída!

Divagações, perturbações

Explode o caos das emoções

 

Segura corpo o fio da trilha

Esquece o estrago d’afonia

Imaginária da saída

Da falta de meios

Pra exprimir os cheios

Poços lúgubres de vazio

 

Mundo inóspito sombrio

Soca pungente minh’alma febril

Chuta ardente o espírito

Escárnio puro, humor satírico

Nem aquiesce o desvario

 Qu’inunda o ser em calafrios

 

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