décembre 2008


 

 
Dói imagem, dói tormento

Medo sinto, desalento

Estrutura manhosa corroída

Sistema de indagações – possuída!

Divagações, perturbações

Explode o caos das emoções

 

Segura corpo o fio da trilha

Esquece o estrago d’afonia

Imaginária da saída

Da falta de meios

Pra exprimir os cheios

Poços lúgubres de vazio

 

Mundo inóspito sombrio

Soca pungente minh’alma febril

Chuta ardente o espírito

Escárnio puro, humor satírico

Nem aquiesce o desvario

 Qu’inunda o ser em calafrios

 

Ao sair do útero, a criança precisa enfrentar o mundo. A luta inicial é pela manutensão do equilíbrio homeostático. A amamentação traz o leite que alimenta, as fezes e a urina dejetam os produtos já metabolizados e inúteis.

Logo após o nascimento, a estrutura sensorial mais desenvolvida é a boca. É pela boca que o sujeito se mobilizará na luta pelo equilíbrio homeostático. O seio é o primeiro objeto de ligação afetiva infantil e constitui, inicialmente, parte do objeto de desejo, sendo a mãe o objeto total. Neste momento, a libido está organizada em torno da zona oral.

A segunda etapa surge com a eclosão dos dentes, chamada oral canibalística. Caracteriza-se pelo surgimento da agressividade e é importante para o futuro desenvolvimento social do indivíduo.

A fase anal corresponde ao período de um a três anos e caracteriza-se pelo fato de a criança começar a perceber outros objetos, inclusive o pai. No início do segundo ano de vida, a libido passa da organização oral para a anal. No final da fase, a criança já se encontra bastante diferenciada, possui noção do que é dela e do que é do outro. As fezes são também muito importantes e assumem um papel central na fantasia infantil. Alguns autores as comparam ao valor do dinheiro.

No início da fase fálica, a criança distingue o pai e a mãe, mas não percebe a diferença sexual. A erotização passa a ser dirigida para os genitais, desenvolve-se o interesse infantil por eles. A presença do falo é que distingue o homem da mulher. A erotização genital cria a necessidade de buscar o objeto que permitirá a obtensão de prazer, ou seja, um elemento do sexo oposto. É aprendendo a amar em casa que a criança se tornará o adulto capaz de amar fora.

O complexo de Édipo refere-se a um drama vivido intensamente pela criança num período situado entre o terceiro e o quinto ano de vida. Em plena fase fálica, a criança transfere o interesse total de seu ego para o Falo, que passa então a representa-lo. A partir do falo onipotente, a criança passa a dirigir sua libido para a mãe. A mãe sadia, ao se revelar inteira para a criança, mostra-se também como mulher, isto é, como pessoa que procura num outro o amor genital, que a criança não poderá oferecer-lhe ou substituir. Esta recusa assinala que existe na mãe um espaço afetivo que a criança não pode preencher. É um espaço destinado a alguém outro. Esta recusa foi denominada por Freud como proibição do incesto.

As fantasias infantis de se casar com a mãe, de ser seu namorado ficam vedadas pelo pai. A criança configura o desejo de eliminar aquele que lhe impede o acesso à mãe. Fica então configurado o triângulo freudiano denominado complexo de Édipo. O drama edipiano tem como significado o destronamento do narcisismo infantil. A eliminação do rival, “o desejo de morte em relação ao pai” também fracassa, face à manutensão da “proibição do incesto”. O pai revela-se mais forte que o falo todo poderoso. A criança deverá, então, conformar-se à realidade ou transforma-la a fim de obter a satisfação dos seus desejos. A fissura ocorrida neste narcisismo é vivida pela criança por aquilo que se convencionou chamar de complexo de castração. A criança teme perder o que lhe é mais importante, o falo.

O menino vislumbra o poder do falo nas excitações genitais dirigidas à mãe. No entanto, as pretensões eróticas esbarram na presença paterna, que se revela como rival na disputa pela posse da mãe. Os sólidos laços que mantêm o interesse erótico da mãe pelo pai despertam um profundo ódio na criança. Este ódio se traduz por um desejo de morte do pai. Entretanto, ao triunfar sobre o desejo da criança, coloca-se face ao filho como um ser poderoso e indestrutível. Essa vingança toma a forma, no pensamento infantil, de uma possibilidade de castração. Assim, o menino pensa que a menina não possui o falo porque fora mutilada pelo pai. A figura paterna é temida e, ao mesmo tempo, admirada por sua força e poder. Daí o processo de identificação com o pai. Esta identificação permitirá ao menino resolver o conflito no qual ele se viu inserido. Tal identificação consiste em introjetar as qualidades essenciais do pai, transformando o Ego infantil em função dessas qualidades introjetadas. A criança passa então, ela mesma, a proibir-se aquilo que anteriormente o pai lhe barrava. Em suma, no menino, a castração é responsável pela superação do complexo de Édipo.

A menina vislumbra o poder do falo nas excitações clitorianas e, tal como nos meninos, é para a mãe que são dirigidos seus impulsos eróticos. O interesse pela região genital fará com que ela se interrogue a respeito da diferença anatômica dos sexos, até então despercebidas. A esperança de que o clitóris cresça e se transforme num pênis é logo abandonada. A esta desilusão segue-se uma hostilidade pela mãe, vista que ela foi incapaz de fornecer-lhe um pênis. Se no menino é a castração que faz superar o complexo de Édipo, na menina é pela castração que se inicia o Édipo.

A posição feminina é particularmente árdua: não só ela se vê obrigada a deslocar a zona erógena do clitóris para a vagina como também a trocar o objeto de amor materno pelo paterno. Finalmente, é identificando-se com a mãe que a menina passa a assumir uma identidade feminina e buscar, nos homens, similares do pai.

Com a repressão do Édipo, houve de início a repressão da energia sexual. É preciso que ela seja canalizada para outras finalidades. Estando os fins eróticos vedados, ela é canalizada para o desenvolvimento intelectual e social da criança. A este processo de canalizar uma energia inicialmente sexual em uma energia mobilizadora chamamos de sublimalção, mecanismo de defesa mais evoluído e é característico do indivíduo normal. Ao período que sucede a fase fálica, chamamos de período de latência, que se caracteriza pela canalização das energias sexuais para o desenvolvimento social, através das sublimações. Não há nova organização de fantasias básicas, a sexualidade que permanece reprimida durante este período, aguarda a eclosão da puberdade para ecludir.

Segundo Freud, o homem normal era aquele capaz de “amar e trabalhar”. Alcançar a fase genital constituiria atingir o pleno desenvolvimento do adulto normal. As adaptações biológicas e psicológicas foram realizadas. Desenvolveu-se intelectual e socialmente, sendo capaz de amar no sentido genital amplo. É capaz de definir um vínculo heterossexual significativo e duradouro, além de capacidade orgástica plena. A perpetuação da vida é sua finalidade última. Produzir é, num sentido amplo, sublimação do gerar. A obra social seria, então, derivada da genitalidade.

(continua…)

A utilização do método catártico e hipnótico de Breuer logo trouxe problemas. Os tratamentos fracassavam devido ao fato de que a cura só durava até que a pessoa voltasse à sua consciência; e, além disso, muitos pacientes não conseguiam ser hipnotizados. Freud deduziu que se um fato tão significativo não podia emergir senão com muito esforço, era porque havia uma força que se opunha à sua percepção consciente. Freud chamou essa força de resistência, que só pôde ser descoberta e compreendida após o abandono da hipnose.

Quando era dada ao hipnotizado uma ordem que ele não podia cumprir, ele acordava abruptamente do transe, bastante incomodado, e tornava-se, em seguida, resistente a entrar em nova hipnose. Em síntese, se a hipnose era capaz de fazer surgir algumas pequenas atitudes que geralmente o paciente não as teria  quando sentindo-se ameaçado,  ele não só se recusava a cumprir as ordens como tornava-se particularmente resistente ao procedimento. Isso fez com que Freud abandonasse a técnica da hipnose.

A tarefa do médico seria, então, utilizar a hipnose como um bisturi. O método de penetrar o psiquismo e criar condições para que o trauma ressurgisse à consciência, fora do estado de ‘absence’, quando então poderia ser experienciado com toda a carga afetiva que não pôde ser vivida na hora traumática, ficou conhecido como o método catártico.  Freud, após um certo tempo, o abandonou.

O processo ocorre  mais ou menos assim: a homeostase, mantida pelo princípio de constância, evolui com o surgimento do princípio de Nirvana (que tende a exigir tensão zero) . A energia livre(afetiva) liga-se a alguma idéia ( representante ou conteúdo ideativo) – processo primário, o mais próximo do que depois perderá a característica de substantivo (O Inconsciente) e  aparecerá ligado a algum outro conteúdo aceito pelo sistema (com a característica de qualidade Inconsciente , Pré-Consciente ou Consciente) – processo secundário.

Uma força  mantia essa percepção de acontecimentos cuja dor o indivíduo não poderia suportar de imediato inconsciente ( a mente não sabe que sabe). Essa força foi  denominada recalque.

A descoberta da resistência e do recalque marcaram a ultrapassagem de um modelo estático do trauma para um modelo dinâmico, de jogo de forças.

Por motivos éticos e estéticos, o consciente não suportava a percepção de uma vivência e a mantinha  inconsciente. A resistência bloqueava essa percepção, índice inexplicável de que a mente sabia o que não queria saber.

Freud fez o que, cf. o « Vocabulário de psicanálise » Laplanche e Pontalis, chamou-se de “a viragem” do modelo psicanalítico. Os conceitos tópicos de consciente e incosciente cederam lugar a três  novos constructos, que constitui o modelo dinâmico da estruturação da personalidade: id, ego e superego.

Freud elaborou a primeira teoria das pulsões, que as dividia em as de auto-conservação e as sexuais. As pulsões de auto-conservação teriam como objetivo a preservação da vida do organismo. A ausência prolongada de sua satisfação seria letal. Essas pulsões se aliam ao princípio de realidade e são percebidas pelo pensamento consciente e racional. Já as pulsões sexuais teriam como objetivo a preservação da vida da espécie. A ausência prolongada de sua satisfação não seria letal. Essas pulsões se aliam ao princípio do prazer e são percebidas pelo pensamento inconsciente ou fantasia.

Essa teoria foi abandonada e surgiu a segunda teoria das pulsões, que as dividiu em: as pulsões de vida e as de morte. A pulsão de vida visa a preservação da vida do organismo e da espécie. Ela é conjuntiva e construtiva e preside à organização e diferença das formas. Outras de suas características são a heterogeneidade e a entropia negativa(morte térmica), manifestando-se como o amor, a solidariedade, generosidade e outras formas positivas.

Já a pulsão de morte visa a destruição da vida do organismo e da espécie. Ela é disjuntiva, destrutiva e preside à desorganização e dissolução das formas. Outras de suas características são a homogeneidade, a entropia positiva, manifestando-se como ódio, agressividade,  masoquismo,  sadismo,  culpa , fracasso…

A estrutura da personalidade é formada por quatro fases de desenvolvimento e um período de latência.

A fase oral corresponde à idade por volta de zero a dois anos e  é subdividida em fase oral de sucção – de zero a seis meses, e oral canibalística – de seis meses a um ano mais ou menos.

(continua…)

Aquele que preenche
As expectativas do ambiente
Nem débil, nem criativo
Nem letárgico, nem ativo
Nem do Bem, nem do Mal
  Esse é o Normal

Muito além da rotulação
Do determinável, da previsão
Transcendente da razão
Encaixa-se no padrão
Somente se houver compreensão
  Eis o Natural…
  …agente da inovação

A personalidade é uma construção evolutiva. Freud utiliza uma abordagem estruturalista, fundamentada sobre uma lógica formal através da interligação entre os elementos.

Antes de Charcot, qualquer perturbação mental estava supostamente ligada a problema lesional. Inaugura-se, então, a idéia de que o psiquismo possui certa autonomia com relação ao organismo.

Freud estudou as idéias trabalhadas por Nietzsche – o ser humano precisa ser forte, dominante, realizar-se sem freio moral, deve guerrear a existência. Nietzsche criticava o Cristianismmo e considerava a filosofia grega falha até o final da era pré-socrática. Freud organizou reuniões às quartas-feiras para estudar Nietzsche, que também se interessou pelo inconsciente. Freud foi quem cientificou o aparelho psíquico.

A primeira teoria do aparelho psíquico foi a biológica, com uma concepção anatomo-fisiológica. Trabalha com duas fontes de energia segundo o princípio da constância: a excitação externa e a interna. A excitação produz um aumento de tensão, identificada como desprazer, o que acarreta uma descarga energética fazendo com que a tensão diminua, o que é sentido como prazer. A excitação externa não é do campo da investigação psicanalítica. A Psicanálise foca na excitação interna. A  ênfase é a história individual do sujeito; e é uma das raras linhas da psicologia que se preocupa com a estrutura da personalidade ou aparelho psíquico.

Essa primeira descrição representa uma tentativa que reduz o funcionamento do aparelho psíquico a um sistema mecânico de neurônios. Como uma máquina mental.

Já a primeira teoria psicológica foi a de uma concepção topológica: consciente, pré-consciente e inconsciente – que trabalha o espaço virtual, metafórico . Com essa concepção, situa-se maior quantidade de fenômenos, mas conservando alguns princípios da teoria biológica.

O pré-consciente é um sistema situado entre o consciente e o inconsciente. Do primeiro ao segundo existiria a “censura”, impedindo que certos conteúdos presentes no inconsciente,fiquem livres ao acesso sem que haja preparação para aceitar esse material ainda. Esta censura é responsável pelo recalcamento.  O pré-consciente é formado por atos psíquicos que tiveram a passagem liberada do inconsciente, os traços mnêmicos. Caracteriza-se pelo pensamento racional lógico, pelo esquema referencial da realidade, memória, moralidade, dá a noção do bem e do mal, energia ligada aos conteúdos psíquicos pelo código representacional – a linguagem, o controle motor. Pelo princípio de realidade, o processo secundário, o qual adia a satisfação do desejo conforme coordenadas espaço-temporais, o pré-consciente constitui-se, a exemplo do inconsciente, em um sistema  no qual podemos distinguir um conteúdo e um processo que regem o seu funcionamento. Isso é possível através do contra-investimento e o desinvestimento.

O consciente é formado por atos psíquicos focalizados momentaneamente. Caracteriza-se pela atenção, repressão, pensamento racional e recepção das excitações externas e internas. As demais funções são iguais às do pré-consciente excluindo o recalcamento. É como se esse sistema se situasse na periferia do aparelho psíquico. Sua função principal consiste na recepção de excitações  externas ou  internas. Entretanto, ao contrário do que ocorre no pré-consciente, bem como no inconsciente, o consciente não  marca nenhuma excitação. A censura que separa o consciente do pré-consciente é simplesmente “funcional”, deixa passar os elementos psíquicos pré-conscientes que interessam à consciência num dado momento.

O inconsciente não é uma negação do consciente, mas  outra cena(escondida) da personalidade. Esse território inconsciente é ativo, organizado por leis e princípios que lhe são próprios. O conteúdo do inconsciente consiste, pois, em impulsos carregados de desejo. Outro aspecto é um modo de funcionamento que o torna organizado. O inconsciente apresenta características que não são encontradas em nenhum outro sistema, como o desconhecimento da negação(não e sim aí não faz diferença), é regulado pelo princípio do prazer, dispensa qualquer referência à realidade, seus processos são atemporais, é estruturado por relações de semelhança e contigüidade, através dos mecanismos de deslocamento(uma idéia liga-se a outra sem precisar de lógica ou qualquer regra da linguagem) e condensação(vários conteúdos podem aparecer misturados e simultaneamente, por exemplo).

A descoberta do inconsciente por Freud foi através da clínica pioneira de Breuer e com experiências de sugestão pós-hipnótica de Bernheim. A ordem dada ao paciente submetido à hipnose faz parte de um processo que este não percebe, é subjacente à sua consciência e, no caso específico, é dominante sobre a consciência.

(continua…)

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