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PARTE I

Alguns trechos de sua obra inacabada Aurélia (devido ao seu suicídio) entre divagações ou, talvez, acrescidas de um pouco de imaginação.

« O sonho é uma segunda vida.(…)Os primeiros instantes do sono são a imagem da morte: um entorpecimento nebuloso toma nosso pensamento, e nós não podemos determinar o instante preciso em que o eu, sob uma outra forma, continua a obra da existência. É um subterrâneo vago que se ilumina pouco a pouco, e onde se distinguem da sombra e da noite as pálidas figuras gravemente imóveis que habitam a morada dos limbos. Em seguida, o quadro se forma, uma claridade nova ilumina e coloca em jogo essas aparições bizarras – o mundo dos espíritos se abre para nós. »

Um autor perspicaz, profundo e bastante interessante a meu ver.

No término da inacabada Aurélia diz: « É assim que me encorajei a uma audaciosa tentativa. Eu resolvi fixar o sonho e conhecer seu segredo. (…)Após um entorpecimento de alguns minutos, uma vida nova começa, liberada das condições de tempo e de espaço, sem dúvida semelhante àquela que nos aguarda após a morte. Quem sabe se não existe uma ligação entre essas duas existências e se não é possível à alma uní-las desde agora? (…)A partir desse momento, eu me dedicava a procurar o sentido de meus sonhos e essa inquietação influenciou minhas reflexões do estado de vigília. Eu acreditei compreender que existia entre o mundo interno e o externo uma ligação. »

Não parece um precoce profeta freudiano? Realmente, entender os sonhos ajuda a melhor lidar com as loucuras. Um afrouxamento, talvez, das amarras dum caos psicótico que, dependendo da utilização e cirstâncias envolvidas, possa entrar na polêmica « salvação » dos problemas relativos à estrutura via uma gambiarra de nó e o surgimento do Sinthoma(aqui como o conceito inventado por Lacan), assim como em Joyce ou Lispector. Atentando para que isso é apenas mais uma conjectura sem finalidade alguma de se impor como a melhor ou a verdadeira, longe disso.

« Aqui começou para mim aquilo que chamaria de derramamento do sonho na vida real. »

A escrita, para Nerval, não conseguiu aliviar o suficiente para evitar que se enforcasse em 1855, afogado num mar de trevas da miséria material e psicológica no qual sua lamentável e gigantesca melancolia o engolfou. Aurélia foi infelizmente interrompida, e uma mente brilhante obteve um triste, trágico, lancinante termo. Um gênio, um louco, um memorável humano, demasiadamente humano e sensível sofredor. Histórico homem admirável! Divagando em meus íntimos pensamentos, pergunto: ó Deus, se tu existes, não acha que colocastes este homem no mundo cedo demais?

« Uma dama a quem eu havia amado por muito tempo e que eu chamarei do nome Aurélia, estava perdida para mim. Pouco importam as circunstâncias desse acontecimento que deveria ter uma influência tão grande sobre minha vida. Cada um poderá procurar em suas recordações a emoção mais pungente, o golpe mais terrível desferido sobre a alma pelo destino; é necessário então decidir morrer ou viver… »

Reflito: ser ou não ser… morrer ou viver… Que indivíduo introspectivo do nosso tempo nunca pensou esses mistérios? Bom, eu já.

« Que loucura, eu me dizia, amar assim de um amor platônico uma mulher que não me ama mais. Isso é culpa de minhas leituras; eu levei a sério as invenções dos poetas e fiz para mim uma Laura ou uma Beatriz de uma pessoa ordinária de nosso século. »(s.i.c)

Penso que vivi algo parecido. Tomei um fora bem na época em que estava arroxada de provas estressantes e imbuída de Shakespeare. Dramatizei e idealizei exageradamente a realidade. Minha mente fora assaltada por estes pensamentos ligeiramente românticos: oh, que razão terei para viver agora se meu amado não me desejas mais? Mas a história não ficou apenas no drama: peguei todos os pequenos objetos mais significativos e estimados – embora de nenhum valor material – e acordei (ou não, poderia-se dizer) com a cabeça nas nuvens, caminhando até a faculdade como se nada nem ninguém existisse. Subi ao terrasso e proferi minhas últimas palavras, como se estivesse face a face ao idolatrado: sim, oh ser que cativastes minha alma como ninguém o poderia ter feito. Aceito tua rejeição e deixo contigo meu coração, pela eternidade. Adeus, amor! Joguei-me…