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Segundo Lacan, o ser humano não nasce sujeito. Quando nasce, é como um corpo espedaçado, correspondendo esse período ao que Freud chamou de auto-erotismo, um corpo regido por pulsões parciais não unificadas. Até que ocorre uma “nova ação psíquica” (Freud), possibilitando a constituição do eu corporal como unidade.

O período em que ocorre essa nova ação psíquica Lacan chamou de Estádio do Espelho, constituído por três etapas. Na primeira etapa, a criança percebe a imagem real de um outro (a mãe), mas esta não é interiorizada. Na segunda etapa, a criança percebe a imagem da mãe apenas como imagem, a mãe é irrealizada. Já na terceira etapa, que corresponde ao primeiro tempo do Complexo de Édipo, ocorre a identificação à sua própria imagem, uma identificação à mãe como imagem. Essa é a identificação primária. A mãe funciona como um espelho para a criança, refletindo o que esta virá a ser. É uma relação extremamente próxima e necessária, que determinará toda dependência moral e afetiva do ser humano ao semelhante. O eu é, assim, formado como um precipitado de traços de identificação com o outro. A imagem da mãe chega de forma invertida, como de um espelho.

Contudo, essa relação simbiótica e fusional entre a mãe e o bebê precisa passar por um corte, o que acontece no segundo tempo do Édipo. No primeiro tempo, a mãe endereça seu desejo à criança e a toma como aquilo que lhe falta (o falo). O segundo tempo ocorre com a intervenção da função paterna fazendo um corte no desejo da mãe, fazendo este se endereçar para outro lugar que não a criança como falo. É através dessa operação que a criança poderá sair da posição de ser ou não ser o falo para a dimensão do ter ou não ter o falo, passando a buscar a identificação com quem supostamente tem o falo.

Todo desejo é suportado por uma falta, a qual é inserida no mundo da criança e simbolizada a partir da intervenção da função paterna. Esta lança o sujeito na alienação simbólica, porque fica ainda prisioneiro da palavra, da linguagem, que é comum a todos. Enquanto o eu nasce no campo do outro semelhante, especular, imaginário, o sujeito nasce no campo do Outro da linguagem, da função paterna, da Lei contra o incesto, que ordena as relações sociais. O desejo é sempre desejo do Outro, pois o que o sujeito deseja é determinado por sua relação com a função paterna. O sujeito é sempre marcado pelo Outro. Surge aí um paradoxo: embora o sujeito seja determinado por algo fora dele, ele precisa responsabilizar-se pelo seu desejo.

Lacan chama objeto a aquilo que causa o desejo. Esse objeto a é o que não está inscrito, aquilo que fura, falta e não pode ser representado. É um resto pulsional e tem a ver com a pulsão de morte. A falta jamais é toda preenchida, ficando o desejo para sempre insatisfeito. O sujeito busca realizar esse desejo através do deslocamento metonímico na demanda, na tentativa de satisfazê-lo. É a partir da falta que o sujeito faz sintoma. Chama-se deslocamento metonímico porque o sujeito toma o objeto substitutivo como se fosse o objeto original perdido, o qual jamais é encontrado todo. Uma parte do objeto de desejo é tomado como se fosse o desejo todo.

Um paradigma do acesso ao registro simbólico é a brincadeira do fort-da explicitada por Freud. Através dessa brincadeira, a criança faz uma renúncia pulsional, suportando as ausências da mãe e utiliza como recurso simbólico para lidar com a separação uma encenação por ela mesma do aparecimento e retorno do carretel, este simbolizando a mãe.