Essa renúncia pulsional é fundamental para sua inserção na cultura social. A criança precisa suportar o fato de que ela não é o falo da mãe, ou seja, não é o único e exclusivo objeto do desejo da mãe. Poderia perguntar-se: por que a criança parece ter mais satisfação do que angústia com a brincadeira? Afinal, a mãe está ausente. Porque a criança sai da posição passiva para a posição de sujeito, ela passa a ter controle da situação, podendo, assim, fazer a renúncia pulsional. A criança constrói um controle simbólico do objeto.

O carretel é um substituto metafórico da mãe, possuindo como traço comum o fato de estar presente ou ausente. É o Pai simbólico que nomeia a ausência da mãe (se a mãe não está, é porque está com o pai). Tudo que dá notícia do corte da relação fusional com a mãe é identificado ao Pai, aquele que inaugura a cadeia de significantes, a cadeia falada da demanda, e também inaugura o inconsciente.

A demanda é a necessidade desnaturalizada pela interpretação. A dimensão da falta é constitutiva do sujeito. Para ter representação, é preciso uma falta. É preciso que a coisa se perca para poder ser representada. Assim,a palavra é a morte da coisa (Lacan). A criança usa o significante da forma como pode representar algo. A palavra representa a coisa e reapresenta a falta.

A partir da castração (a operação em que a função paterna corta o desejo da mãe), a criança (agora mediada pela linguagem), passa do desejo de ser o falo para o desejo de ter o falo. É o terceiro tempo do Édipo. O desejo tenta realizar-se no deslize pela cadeia metonímica da demanda, buscando articulação nas substituições. É o objeto a , representante do objeto perdido para sempre que causa o desejo, que marca a falta relativa à questão fálica.

Toda operação de linguagem é não toda, sempre falta algo. Como diz Guimarães Rosa, muita coisa importante falta nome. E é essa falta primordial que vai estruturar o sujeito.

Os registros imaginário e simbólico são recursos para se lidar com a energia pulsional. O que não é coberto nem pelo imaginário nem pelo simbólico é o real.

As demandas tentam nomear, à revelia do sujeito, o desejo original. Numa análise, não se deve responder à demanda do sujeito, ou se estaria tamponando a falta.

Assim, é a metáfora paterna que constitui a estrutura do sujeito: na neurose por sua incisão através do recalcamento; na psicose por sua forclusão; e na perversão por um desmentido. O sujeito é, então, um “parlêtre”, como diz Lacan, um ser de linguagem.

Referência bibliográfica:

– DOR, J. Introdução à leitura de Lacan. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989

– QUINET, A. Teoria e clínica da psicose. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997