juillet 2007


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PARTE I

Alguns trechos de sua obra inacabada Aurélia (devido ao seu suicídio) entre divagações ou, talvez, acrescidas de um pouco de imaginação.

« O sonho é uma segunda vida.(…)Os primeiros instantes do sono são a imagem da morte: um entorpecimento nebuloso toma nosso pensamento, e nós não podemos determinar o instante preciso em que o eu, sob uma outra forma, continua a obra da existência. É um subterrâneo vago que se ilumina pouco a pouco, e onde se distinguem da sombra e da noite as pálidas figuras gravemente imóveis que habitam a morada dos limbos. Em seguida, o quadro se forma, uma claridade nova ilumina e coloca em jogo essas aparições bizarras – o mundo dos espíritos se abre para nós. »

Um autor perspicaz, profundo e bastante interessante a meu ver.

No término da inacabada Aurélia diz: « É assim que me encorajei a uma audaciosa tentativa. Eu resolvi fixar o sonho e conhecer seu segredo. (…)Após um entorpecimento de alguns minutos, uma vida nova começa, liberada das condições de tempo e de espaço, sem dúvida semelhante àquela que nos aguarda após a morte. Quem sabe se não existe uma ligação entre essas duas existências e se não é possível à alma uní-las desde agora? (…)A partir desse momento, eu me dedicava a procurar o sentido de meus sonhos e essa inquietação influenciou minhas reflexões do estado de vigília. Eu acreditei compreender que existia entre o mundo interno e o externo uma ligação. »

Não parece um precoce profeta freudiano? Realmente, entender os sonhos ajuda a melhor lidar com as loucuras. Um afrouxamento, talvez, das amarras dum caos psicótico que, dependendo da utilização e cirstâncias envolvidas, possa entrar na polêmica « salvação » dos problemas relativos à estrutura via uma gambiarra de nó e o surgimento do Sinthoma(aqui como o conceito inventado por Lacan), assim como em Joyce ou Lispector. Atentando para que isso é apenas mais uma conjectura sem finalidade alguma de se impor como a melhor ou a verdadeira, longe disso.

« Aqui começou para mim aquilo que chamaria de derramamento do sonho na vida real. »

A escrita, para Nerval, não conseguiu aliviar o suficiente para evitar que se enforcasse em 1855, afogado num mar de trevas da miséria material e psicológica no qual sua lamentável e gigantesca melancolia o engolfou. Aurélia foi infelizmente interrompida, e uma mente brilhante obteve um triste, trágico, lancinante termo. Um gênio, um louco, um memorável humano, demasiadamente humano e sensível sofredor. Histórico homem admirável! Divagando em meus íntimos pensamentos, pergunto: ó Deus, se tu existes, não acha que colocastes este homem no mundo cedo demais?

« Uma dama a quem eu havia amado por muito tempo e que eu chamarei do nome Aurélia, estava perdida para mim. Pouco importam as circunstâncias desse acontecimento que deveria ter uma influência tão grande sobre minha vida. Cada um poderá procurar em suas recordações a emoção mais pungente, o golpe mais terrível desferido sobre a alma pelo destino; é necessário então decidir morrer ou viver… »

Reflito: ser ou não ser… morrer ou viver… Que indivíduo introspectivo do nosso tempo nunca pensou esses mistérios? Bom, eu já.

« Que loucura, eu me dizia, amar assim de um amor platônico uma mulher que não me ama mais. Isso é culpa de minhas leituras; eu levei a sério as invenções dos poetas e fiz para mim uma Laura ou uma Beatriz de uma pessoa ordinária de nosso século. »(s.i.c)

Penso que vivi algo parecido. Tomei um fora bem na época em que estava arroxada de provas estressantes e imbuída de Shakespeare. Dramatizei e idealizei exageradamente a realidade. Minha mente fora assaltada por estes pensamentos ligeiramente românticos: oh, que razão terei para viver agora se meu amado não me desejas mais? Mas a história não ficou apenas no drama: peguei todos os pequenos objetos mais significativos e estimados – embora de nenhum valor material – e acordei (ou não, poderia-se dizer) com a cabeça nas nuvens, caminhando até a faculdade como se nada nem ninguém existisse. Subi ao terrasso e proferi minhas últimas palavras, como se estivesse face a face ao idolatrado: sim, oh ser que cativastes minha alma como ninguém o poderia ter feito. Aceito tua rejeição e deixo contigo meu coração, pela eternidade. Adeus, amor! Joguei-me…


Quando eu fazia terapia, um dia sonhei que havia dois eus. Estávamos no consultório, nós ‘três’. Contudo os dois eus eram diferentes. Tinham a mesma aparência, com personalidades dissemelhantes. Dividiam, assim, o divã. Um era frágil, ingênuo, medroso, alegre, infantil e continuou na sala conversando com a terapeuta. O outro era sério, maduro, melancólico, fumava e saiu do consultório, deixando lá o ‘eu’ pusilânime e infantil. O que saiu era mais decidido e corajoso. Contei o sonho para a psicóloga. Eu não fumava àquela época. Passaram alguns anos…


Agora possuo mais eus e todos fumam. São confusos e se sabotam. Acabei de ler "Filosofia Hoje". É um livro histórico em linguagem simples. Demonstra a trajetória do pensamento humano dominante desde a época da predominância do pensamento mágico-religioso até o positivismo moderno. Fala do liberalismo, do existencialismo, do personalismo… do surgimento da ciência, muito interessante.

Lembrei-me dessa história do cigarro, que até hoje me é intrigante, porque outro dia provoquei um mini-incêncio no quarto. Joguei um toco na lixeira cheia de papéis que fica um pouco atrás da cadeira. Comecei a sentir um pouco de dificuldade para respirar e até pensei: – Nossa, será que meu pulmão já está tão ruim desse jeito? Logo entrou minha mãe escancarando a porta com os olhos arregalados: – Fogo! Está pegando fogo! O cômodo ficou cinza. Mamãe levou a lixeira em chamas pro tanque e apagou tudo, esbaforida. Pensei que ela fosse ter um atague cardíaco. Bom, por hoje ficamos por aqui. Como a humanidade anda estressada!

Ah, quer uma moral pra história? Humm, simples: nunca jogue um cigarro semi-aceso num cesto de papéis ou talvez precisará acompanhar alguma pessoa mais velha ao hospital. Puxa, como fazem tempestade em copo d’água.

Citação: "When the power of love overules the love of power, there will be peace on Earth."

Ponto de vista

Do alto se vê que forte

É a compulsão a se maltratar

Troque de lado e admire o porte

Da natureza sob o altar

E as águas fluem com destreza

Seguindo o próprio fado

Assim não cansam tal beleza

Revoltando-se de mal grado

Porém todo terreno esbange um lago

Cujas águas renunciam à correnteza

Mostrando qual um outro lado

Por detrás de toda certeza

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Segundo Lacan, o ser humano não nasce sujeito. Quando nasce, é como um corpo espedaçado, correspondendo esse período ao que Freud chamou de auto-erotismo, um corpo regido por pulsões parciais não unificadas. Até que ocorre uma “nova ação psíquica” (Freud), possibilitando a constituição do eu corporal como unidade.

O período em que ocorre essa nova ação psíquica Lacan chamou de Estádio do Espelho, constituído por três etapas. Na primeira etapa, a criança percebe a imagem real de um outro (a mãe), mas esta não é interiorizada. Na segunda etapa, a criança percebe a imagem da mãe apenas como imagem, a mãe é irrealizada. Já na terceira etapa, que corresponde ao primeiro tempo do Complexo de Édipo, ocorre a identificação à sua própria imagem, uma identificação à mãe como imagem. Essa é a identificação primária. A mãe funciona como um espelho para a criança, refletindo o que esta virá a ser. É uma relação extremamente próxima e necessária, que determinará toda dependência moral e afetiva do ser humano ao semelhante. O eu é, assim, formado como um precipitado de traços de identificação com o outro. A imagem da mãe chega de forma invertida, como de um espelho.

Contudo, essa relação simbiótica e fusional entre a mãe e o bebê precisa passar por um corte, o que acontece no segundo tempo do Édipo. No primeiro tempo, a mãe endereça seu desejo à criança e a toma como aquilo que lhe falta (o falo). O segundo tempo ocorre com a intervenção da função paterna fazendo um corte no desejo da mãe, fazendo este se endereçar para outro lugar que não a criança como falo. É através dessa operação que a criança poderá sair da posição de ser ou não ser o falo para a dimensão do ter ou não ter o falo, passando a buscar a identificação com quem supostamente tem o falo.

Todo desejo é suportado por uma falta, a qual é inserida no mundo da criança e simbolizada a partir da intervenção da função paterna. Esta lança o sujeito na alienação simbólica, porque fica ainda prisioneiro da palavra, da linguagem, que é comum a todos. Enquanto o eu nasce no campo do outro semelhante, especular, imaginário, o sujeito nasce no campo do Outro da linguagem, da função paterna, da Lei contra o incesto, que ordena as relações sociais. O desejo é sempre desejo do Outro, pois o que o sujeito deseja é determinado por sua relação com a função paterna. O sujeito é sempre marcado pelo Outro. Surge aí um paradoxo: embora o sujeito seja determinado por algo fora dele, ele precisa responsabilizar-se pelo seu desejo.

Lacan chama objeto a aquilo que causa o desejo. Esse objeto a é o que não está inscrito, aquilo que fura, falta e não pode ser representado. É um resto pulsional e tem a ver com a pulsão de morte. A falta jamais é toda preenchida, ficando o desejo para sempre insatisfeito. O sujeito busca realizar esse desejo através do deslocamento metonímico na demanda, na tentativa de satisfazê-lo. É a partir da falta que o sujeito faz sintoma. Chama-se deslocamento metonímico porque o sujeito toma o objeto substitutivo como se fosse o objeto original perdido, o qual jamais é encontrado todo. Uma parte do objeto de desejo é tomado como se fosse o desejo todo.

Um paradigma do acesso ao registro simbólico é a brincadeira do fort-da explicitada por Freud. Através dessa brincadeira, a criança faz uma renúncia pulsional, suportando as ausências da mãe e utiliza como recurso simbólico para lidar com a separação uma encenação por ela mesma do aparecimento e retorno do carretel, este simbolizando a mãe.

Essa renúncia pulsional é fundamental para sua inserção na cultura social. A criança precisa suportar o fato de que ela não é o falo da mãe, ou seja, não é o único e exclusivo objeto do desejo da mãe. Poderia perguntar-se: por que a criança parece ter mais satisfação do que angústia com a brincadeira? Afinal, a mãe está ausente. Porque a criança sai da posição passiva para a posição de sujeito, ela passa a ter controle da situação, podendo, assim, fazer a renúncia pulsional. A criança constrói um controle simbólico do objeto.

O carretel é um substituto metafórico da mãe, possuindo como traço comum o fato de estar presente ou ausente. É o Pai simbólico que nomeia a ausência da mãe (se a mãe não está, é porque está com o pai). Tudo que dá notícia do corte da relação fusional com a mãe é identificado ao Pai, aquele que inaugura a cadeia de significantes, a cadeia falada da demanda, e também inaugura o inconsciente.

A demanda é a necessidade desnaturalizada pela interpretação. A dimensão da falta é constitutiva do sujeito. Para ter representação, é preciso uma falta. É preciso que a coisa se perca para poder ser representada. Assim,a palavra é a morte da coisa (Lacan). A criança usa o significante da forma como pode representar algo. A palavra representa a coisa e reapresenta a falta.

A partir da castração (a operação em que a função paterna corta o desejo da mãe), a criança (agora mediada pela linguagem), passa do desejo de ser o falo para o desejo de ter o falo. É o terceiro tempo do Édipo. O desejo tenta realizar-se no deslize pela cadeia metonímica da demanda, buscando articulação nas substituições. É o objeto a , representante do objeto perdido para sempre que causa o desejo, que marca a falta relativa à questão fálica.

Toda operação de linguagem é não toda, sempre falta algo. Como diz Guimarães Rosa, muita coisa importante falta nome. E é essa falta primordial que vai estruturar o sujeito.

Os registros imaginário e simbólico são recursos para se lidar com a energia pulsional. O que não é coberto nem pelo imaginário nem pelo simbólico é o real.

As demandas tentam nomear, à revelia do sujeito, o desejo original. Numa análise, não se deve responder à demanda do sujeito, ou se estaria tamponando a falta.

Assim, é a metáfora paterna que constitui a estrutura do sujeito: na neurose por sua incisão através do recalcamento; na psicose por sua forclusão; e na perversão por um desmentido. O sujeito é, então, um “parlêtre”, como diz Lacan, um ser de linguagem.

Referência bibliográfica:

– DOR, J. Introdução à leitura de Lacan. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989

– QUINET, A. Teoria e clínica da psicose. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997