adler

Alfred Adler nasceu de uma família de classe média em Viena, em 1870, e morreu na Escócia em 1937. Foi um dos fundadores da Sociedade Psicanalítica de Viena e depois seu presidente. Não demorou muito para que começasse a desenvolver idéias que divergissem das de Freud. Formou, então, seu próprio grupo, denominando-o grupo do sistema holístico da psicologia individual.

A abordagem criada por Adler compreende as pessoas como sendo totalidades integradas dentro de um sistema social. Sustenta a motivação do homem como sendo fundamentada pelas solicitações sociais. Para Adler, o homem procura contato com os outros, empreende atividades sociais em cooperação, põe o bem-estar social acima do interesse próprio, adquirindo um estilo de vida que é, predominantemente, orientado para o meio externo.

Adler manifesta uma preocupação biológica, tanto quanto Freud e Jung. Freud enfatiza o sexo, Jung os padrões primitivos de pensamento e  Adler o interesse social.

Adler cria alguns conceitos muito importantes para a psicologia da personalidade:

Selfcorresponde a um sistema altamente personalizado e subjetivo que interpreta e tornam significativas as experiências do organismo. É criador, unitário, consistente e soberano na estrutura da personalidade.

É algo que intervém entre os estímulos que agem sobre a pessoa e as respostas que ela oferece. O homem constrói  sua personalidade com a matéria-prima da hereditariedade e da sua experiência. O self criador dá sentido à vida; cria tanto o ideal como os meios de atingi-lo. É o princípio ativo da vida humana.

Estilo de vidacorresponde ao princípio do sistema pelo qual a personalidade funciona; é o todo que comanda as partes. É o princípio que explica a singularidade da pessoa. Cada pessoa tem um estilo de vida e não há dois iguais.

Todos têm o mesmo objetivo, a superioridade, mas há inúmeras maneiras de atingi-lo. Toda conduta de uma pessoa tem origem em seu estilo de vida. Este forma-se na infância, por volta dos quatro anos de idade e, daí por diante, as experiências são assinaladas e utilizadas de acordo com ele. É uma compensação para determinada inferioridade.

Luta pela superioridade corresponde ao objetivo superior do homem na sua luta contra os obstáculos: ser agressivo, poderoso superior.

“Superioridade é algo análogo ao conceito de self em Jung, ou ao princípio de auto-realização de Goldstein. É um esforço da personalidade no sentido de completar-se. É ‘a força que arrasta para cima.’” (Hall & Lindzey)

Todas as funções do homem seguem a direção da luta pela superioridade, que é inata, é um princípio dinâmico preponderante – uma luta pela plena realização de si mesmo.

Inferioridade e compensaçãohá a inferioridade orgânica, pois, para Adler, cada região do corpo apresenta uma inferioridade básica, inferioridade essa que existe em virtude de herança ou de alguma anomalia do desenvolvimento.

Depois Adler ampliou o conceito, incluindo quaisquer sentimentos de inferioridade, tanto os que decorrem de incapacidades psicológicas ou sociais sentidas subjetivamente, como os que se originam de fraqueza ou deficiência física.

No princípio, Adler correlacionava a inferioridade com feminilidade, cuja compensação ele chamou de “protesto masculino”. Os sentimentos de inferioridade decorrem de um senso de imperfeição em alguma esfera da vida. Adler afirmava que os sentimentos de inferioridade não são indícios de anormalidade; são a causa de todo melhoramento na vida humana.

Sob condições normais o sentimento de inferioridade ou um senso de imperfeição é a grande mola propulsora da humanidade. O homem é impulsionado pela necessidade de superar sua inferioridade e arrastado pelo desejo de ser superior.

Interesse socialcorresponde à verdadeira e inevitável compensação pela natural fraqueza dos seres humanos. É quando a luta pela superioridade torna-se socializada.

Adler acreditava que o interesse social é inato; que o homem é uma criatura social por natureza e não por hábito. Contudo, à semelhança de qualquer outra aptidão natural, esta predisposição inata não surge espontaneamente. Ela torna-se atuante quando orientada e treinada.

É esse interesse social inato que motiva o homem a subordinar o interesse pessoal ao bem-estar comum.

Finalismo de ficção Adler descobriu a idéia de que o homem é motivado mais pelas expectativas do futuro do que por suas experiências do passado. Esses objetivos de ficção eram, para Adler, a causa subjetiva dos acontecimentos psicológicos.

Adler identificou a teoria de Freud com o princípio da causalidade e sua própria teoria com o princípio do finalismo.

“Só o objetivo final pode explicar   a   conduta humana.” (Adler, 1930)

Esse objetivo final pode ser uma ficção, isto é, um ideal impossível de realizar-se mas que é, não obstante, um estímulo real para o esforço humano e para a explanação última de sua conduta. Adler acreditava, contudo, que a pessoa podia libertar-se da influência dessas ficções e enfrentar a realidade quando necessário, o que o neurótico é incapaz de fazer.

Conclusão

Adler interessou-se, especialmente, pelas espécies de influências que predispõem a criança para um defeituoso estilo de vida. Descobriu alguns fatores importantes, como as crianças com inferioridades, as crianças mimadas, as crianças rejeitadas.

As crianças com enfermidades físicas e mentais sofrem muito e têm tendência a se sentir deficientes face às solicitações da vida. Em geral, consideram-se fracassadas. Se, porém, tiverem pais compreensivos e encorajadores, poderiam compensar suas inferioridades e transformar sua fraqueza em força.

Muitos homens famosos começaram a vida com deficiências orgânicas, que depois superaram. Constantemente, e com veemência, Adler levantou sua voz contra os males da superproteção; pois, para ele, esse é o maior castigo que se pode impor à uma criança.

As crianças superprotegidas não conseguem desenvolver sentimentos sociais; tornam-se déspotas, à espera de que a sociedade se conforme com seus desejos egoístas. Adler considerava  isso danoso à sociedade.

A rejeição também produz conseqüências desastrosas nas crianças. Maltratadas na infância, tornam-se adultas inimigas da sociedade. Seu estilo de vida é dominado pela necessidade de vingança.

Essas condições – enfermidade orgânica, superproteção e rejeição  – produzem concepções errôneas sobre o mundo, resultando num estilo patológico de vida.

Bibliografia

-          REIS, MAGALHÂES, GONÇALVES – Alfred Adler e a  psicologia individual, cap.3 In: Teorias da Personalidade, ed. Pedagógica e universitária ltda., São Paulo, 1984.

-          HALL, LINDZEY – Teorias culturalistas: Adler, Fromm, Horney e Sullivan, cap.4 In: Teorias da personalidade, ed. Pedagógica e universitária ltda., São Paulo, 1973.

Análise crítica do texto:

“Sem dinheiro não há salvação: ancorando o bem e o mal entre Neopentecostais”

In: Textos em representações sociais, cap.6, pág.191-223 de P. A. Guareschi

O texto trata de estudos objetivando analisar os significados atribuídos ao dinheiro arrecadado de diversas formas – dízimos, coletas, contribuições…  – das pessoas integradas ao Pentecostalismo.

Critica a excessiva exploração e enganação sutil recoberta com certa lábia de linguagem persuasiva sobre a população. O principal instrumento de dominação usado é a ideologia massificante, conseguindo com bastante êxito fazer com que as pessoas pensem estar fazendo a coisa mais correta enquanto doam uma considerável parte de sua renda e sacrificam a vida de sua família, até mesmo nos aspectos de nutrição; e ainda com a convicção de que o fazem por vontade própria e se não o fizessem estariam compactuando com o Diabo.

Para melhor compreensão do fenômeno, o autor explicita alguns conceitos relevantes. O conceito de Representação Social(RS) foi criado por Moscovici, pois este achava que os conceitos de representações coletivas existentes eram muito estáticos e descritivos e não abordavam satisfatoriamente a dimensão histórico-crítica. Moscovici enfoca uma compreensão da realidade abrangendo as dimensões físicas, sócio-culturais, cognitiva, comunicacional e mental, além da dimensão objetiva e subjetiva.

Para Moscovici, a Psicologia Social possui como tarefa o estudo da ideologia e da comunicação. O conceito de ideologia é essencial para se entender as dimensões éticas, valorativas e críticas da condição humana. Estas, por sua vez, não se podem separar das ações, estando, pois, presentes na estrutura das RS.

As RS (representações sociais) são sempre ideológicas. Consistem num processo de classificar e nomear o que existe organicamente mas não está ainda ordenado categoricamente. As RS formam um conhecimento da realidade acessível a todo o conjunto social que participa de uma realidade comum, incluindo a cultura, valores, pensamentos…

Os templos pentecostais utilizam as RS para extorquir o dinheiro de seus frequentadores. Usam, por exemplo, as idéias do sistema capitalista para instituírem um “mercado divino” com negociações irrecusáveis entre fé, a paz eterna e, é claro, “dindin”. Os discursos magnetizantes acabam convencendo as pessoas a aliviarem seus blosos dessa praga responsável pelo mal e mesquinharia da humanidade – a moeda.

Essa abuso ideológico não consegue tapar a ridicularidad quando apela para frases do tipo: “Você não pode ganhar nada de graça, nem de Deus; para se conseguir uma graça, é preciso pagar.” E sem chance de pagamento simbólico ou substitutivo. Precisa ser grana e em espécie. “Se pagamos a um médico, o aluguel, por que não pagar a quem cura nossos males espirituais?” Alguém poderia responder: “Porque não tenho como pagar.” Mas certamente essa não seria uma resposta aceitável.

Afinal, onde estão os direitos do consumidor de Deus? Já uma velha piada dizia: “O caminho para o reino de Deus é Jesus. Eu sou o pedágio.” – declarou o Presidente da Igreja Universal do Reino de Deus.

Portanto, ter esperanças e crença em um mundo mais justo e melhor é por certo uma virtude e o começo para que belos sonhos se concretizem. Integrar-se em uma comunidade, com participação efetiva e envolvimento pessoal, frequentar uma religião e apostar em seus princípios são atitudes dignas de cidadãos humanos, potencialmente dotados e ativos. Porém, nada é bom quando se deixa cair no conformismo, na distorção de idéias originalmente bem intencionadas e no abuso do fantástico mistério que ronda a vida humana. Este enaltece a grande Natureza e deixa dúvidas que não foram criadas para serem solucionadas, mas usufruídas com humildade, alegria e benevolência. O abuso desse mistério para tomar posses alheias por seres infelizes e infinitamente insatisfeitos é que denigre imagens santas, acarreta problemas e mais problemas. É necessário se envolver, agir conscientemente e refletir com a mente aberta para não ficar como zumbi frente a dominação maliciosa.

por: Tania Montandon

Estado de consciência é a disposição altamente desenvolvida que o ser humano possui, pela qual torna-se possível tomar, em relação ao mundo e aos estados interiores, subjetivos, aquela distância em que se cria a possibilidade de níveis mais altos de integração. Através da consciência, o homem toma conhecimento da sua própria atividade psíquica e é capaz de estabelecer julgamentos morais dos atos realizados.

Em uma pessoa normal, os impulsos nervosos são convertidos em neurotransmissores, como a dopamina, e liberados nos espaços sinápticos. E uma vez passada a informação, a substância é recapturada. Na presença de algumas substâncias químicas, esse mecanismo encontra-se alterado.

O crack é uma droga, subproduto da cocaína, geralmente fumado em cachimbos de fabricação caseira, de uso simples e preço, no início, baixo. Possui um alto poder destruidor, seu efeito chega ao cérebro em oito segundos, vicia à primeira tragada, escraviza o seu usuário e o mata de forma fulminante.
A droga é queimada e sua fumaça aspirada passa pelos alvéolos pulmonares. Cai na circulação sanguínea e atinge o cérebro. No sistema nervoso central, o crack subverte o mecanismo natural de recaptação da substância dopamina nas fendas sinápticas. Bloqueado esse processo, ocorre uma concentração anormal de dopamina na fenda, superestimulando os receptores moleculares, fazendo a pessoa ter a sensação de euforia e poder. A alegria, entretanto, dura pouco. Os receptores ajustam-se às necessidades do sistema nervoso. Ao perceber que existem demasiados receptores na sinapse, eles são reduzidos. Assim, as sinapses tornam-se lentas, comprometendo as atividades cerebrais e corporais. A droga aumenta a pressão arterial e a frequência cardíaca. Há risco de convulsão, infarto e derrame. A droga é metabolizada no fígado e eliminada pela urina.

O crack diminui a fome, aumenta a atividade psicomotora e também altera o funcionamento dos centros límbicos do cérebro, responsáveis pela sensação de prazer. Os resultados imediatos são euforia, desinibição, agitação psicomotora, taquicardia, dilatação da pupila, aumento da pressão arterial e transpiração e, eventualmente, alucinações visuais ou táteis. São comuns as dores de cabeça, tonturas e desmaios.

A desintoxicação orgânica da droga é apenas uma parte muito pequena do processo de tratamento. O organismo consegue se livrar do crack em 72 horas. O maior problema é a dependência psicológica. Até que o usuário encontre seu ponto de equilíbrio, muitas recaídas ocorrem. O dependente necessita receber assistência psicológica e redefinir seus hábitos diários, pois para reorganizar a vida psíquica, que o uso da droga compromete, começa-se pelas pequenas coisas da vida prática.

a partir do texto “Um perverso e a castração” de Carlos Augusto Niceas

Se o perverso já fez a escolha de seu gozo, como o analista poderia intervir para que houvesse mudança em sua perversão?

J. A. Miller, a partir de sua experiência clínica, afirma que “o perverso vem para análise quando não se implica com o que não pode deixar de fazer”. O perverso pode, então, ser um sujeito ético, responsável,, desejoso de responder e testemunhar isso.

Tiago procurou retomar seu tratamento depois de um intervalo de um ano e meio. Ele interrompeu a análise quando se confrontou com a morte próxima de seu pai. Nesse período da análise, Tiago teve uma lembrança de infância inédita: ele estava tomando ducha com um amigo na casa de seus pais. Ambos riam “como loucos” e brincavam de um derrubar o outro, quando sua mãe os surpreendeu e disse que contaria ao pai “as coisas feias” que estavam fazendo. Tiago teve muito medo da reação de seu pai, e de ser castrado por este. Porém, surpreendentemente, o pai contentou-se em fazer o filho prometer-lhe que contaria somente a ele todos os seus pensamentos, sem omitir nenhum, daquele momento em diante. O analista lhe pergunta como entendera a demanda. Tiago responde que entendera que os pensamentos que deveria comunicar ao pai deveriam estar relacionados à sexualidade. Era sempre a mesma confissão: ele acordava no meio da noite com uma ereção e acariciava seu pênis para dormir novamente. Ele estava com 8 anos. Até que uma noite, muito angustiado, Tiago pára de confessar ao pai seus pensamentos íntimos. Inesquecível foi o rosto marcado pelo sofrimento e o olhar de desespero de seu pai na noite da promessa. O pai nunca forçou a confissão ou conversou com o filho. Na verdade, o que o filho mais demandava era que seu pai conversasse com ele.

Durante todo o tratamento, Tiago fazia várias interrupções, sem, no entanto, parecer que havia rompido a ligação transferencial. As interrupções pareciam relacionar-se à demanda do analista de que ele estava ali era para falar. Tiago tinha 24 anos quando começou a análise. Ele estudou jornalismo e pretendia trabalhar com cinema. Morava com os pais e não havia diálogo em casa.

Ele chegou para análise dizendo que passou dois anos em outra análise com uma mesma questão e, por isso, interrompeu-a. Disse que, no sexo, não podia saber se gosta de homens ou de mulheres. Queria falar do sexo como um vício, algo que ele não podia impedir de fazer, como a dependência de drogas. Sem implicação, mas não sem sofrimento. Seu modo de satisfação havia tornado-se sintomático.

Nas entrevistas preliminares, o sujeito organizava seu discurso de modo que manifestasse sua certeza de possuir os meios para se permitir o gozo. Assim, o analista percebeu que o saber do analisante o situava fora de possibilidade de ser surpreendido pela palavra do Outro.

Tiago supunha ao analista um saber sobre as coisas do sexo, um sujeito que soubesse gozar, ao invés do sujeito suposto saber. Por conseguinte, a transferência é usada para desafiar e colocar à prova o desejo do analista, na esperança de capturá-lo em seu jogo. Se isso acontecesse, a transferência viraria um exibicionismo da palavra, onde o sujeito pretendia provar que detinha um saber sobre o agir perverso, com o qual o analista não podia rivalizar.

Em cada retomada da análise, o analista procurava mostrar ao sujeito que ele não estava lá para dividir o analista ou para mostrar quão interessante era seu saber sobre o gozo. Um dia em que o analista disse que seu relato de práticas sexuais era monótono e desinteressante, ele ficou estupefato e, saindo do consultório, disse: “Mas eu não sei falar de amor.”

Para Tiago, o amor tornava o sexo frágil; ele procurava apenas sexo em suas “caçadas”. Ele já avisava de cara para o parceiro: “Eu não faço amor, faço sexo”. Toda palavra, pois, endereçada a ele pelo outro era sinal de convite ao amor. Assim, tornou-se freguês de casas de prostituição, imaginando ser capaz de melhor cumprir sua busca de gozo desviando-se do desejo do Outro.

Tiago dizia que tinha uma impotência mas não física, pois ele fazia sexo, mas uma impotência de não poder rever a pessoa com quem se tinha relacionado.

Em sua posição estrutural na perversão, Tiago vai, a cada encontro, tentar dividir o sujeito do lado do parceiro, ou seja, do lado do Outro, oferecendo-se ele mesmo como instrumento da operação.

Ele paga homens para fazer sexo. Ele os cobre de carícias, toca-os e os leva, pouco a pouco, a gozar como uma mulher num corpo com pênis. Esse é seu triunfo, conseguir essa virada.

É sua impotência de não poder rever seus parceiros que pôde mobilizar o trabalho analítico, sobre a equivalência colocada por ele entre falar e amar, o que o remete ao mutismo de seu pai.

Um dia, através de um lapso, falando do pai, ele o associa ao sexo e à castração. São os significantes de sua infância: a castração esperada por causa da brincadeira com o amigo do banho.

Se sua perversão o faz objetar à castração, instigando-o aos atos que a desmentem, o fato de que ele continua a ir ao analista mostra que, como sujeito do fantasma, ele não está enraizado numa refutação não dialetizável do sujeito suposto saber.

No final, Tiago compreendeu que, fazendo virar seus gigolôs em mulheres, é o amor que ele se arriscava fazer nascer nos seus parceiros, o amor suscetível de virar ódio mortífero. Era seu fantasma masoquista, que o fazia imaginar-se morto pelo parceiro. Como  o diretor de cinema italiano Pasolini, que, porque queria fazer de seu gigolô uma mulher, este o matou.

Bibliografia:

-          NICEAS, C.A. Um pervers et la castration. In: La cause Freudienne. Revue de psychanalyse. Paris, ECF/ACF, nº41, abril, 1999, p.79-84.

Engraçado como tantos possuem o saber
Cada um sabe de mim mais do que eu
E meu saber desliza de ser em ser
Vou a enxergar quem admiro como meu céu

Tantos sujeitos supostos saber
O que sei, objeto de gozos, lazer
Transferindo meu ser
Sou menos eu que sou você

Trago minha esponja como apêndice
Sugo sua emoção como se minha fosse
Ajo de coração conforme suas crendices
Pra depois, com delicadeza, receber seu coice

~

O ser humano é um ser de necessidade. Nesta direção o comportamento humano é pautado pela satisfação dessas necessidades durante as fases do seu desenvolvimento. As necessidades humanas não são naturais, precisam ser criadas, inventadas pelo homem.

Considerando que nenhum comportamento humano é carente de justificativa, é tarefa dos estudiosos da Psicologia da motivação estudar os motivos, os instintos intrínsecos ao homem que o levam a agir, a se comportar de determinada maneira e não de outra. A teoria da motivação visa mapear os motivos humanos, tentando explicitar o comportamento observado numa forma de linguagem inteligível no campo real do homem, através da escrita. Como o ser humano possui tanto a capacidade de construir como a de destruir, é muito importante para ele entender um pouco os instintos que o levam a destruir, impedindo a continuidade do processo de construção de sua vida. Não há como conhecer todas as explicações possíveis, pois o homem pode sempre inventar uma nova explicação. No entanto, conhecendo-se cada vez mais elementos que explicam o comportamento humano, pode-se ter uma maior amplitude de possibilidades que ajudem o homem a conciliar seus
desejos internos com os limites que o meio externo lhe impõe, conciliando seus interesses sem desrespeitar os interesses dos demais seres humanos. Assim, o ser humano pode ter uma vida psíquica mais saudável, à medida que toma consciência de seus instintos inconscientes.

Ao construir sua teoria da motivação, Maslow baseou-se no espírito do seu tempo – Zeitgeist. O espírito do tempo de Maslow é o espírito que reina na sociedade moderna do século XX e XXI. É  o espírito que busca o progresso da ciência, quer explicar o extraordinário, quer saber sobre o futuro, não se conforma em não conseguir achar explicação para alguma coisa. Valoriza o novo e desconsidera o conhecido e habitual. Valoriza o futuro e desprestigia o passado, a tradição. Mas só se é possível partir para o extraordinário passando-se pelo ordinário. A tecnologia só tem valor humano se for utilizada para o bem da vida e da natureza. A vida é um dom que não pode ser explicado completamente. Os homens podem explanar seus comportamentos, porém não a vida. Maslow observou que para que as pessoas sintam a necessidade de preservar a vida e a qualidade de vida, melhorando suas condições, elas precisariam ter suas necessidades básicas satisfeitas, que são aquelas cuja falta causa doença, a sua presença evita doença e a sua restauração mantém a pessoa sadia física e mentalmente. As pessoas precisam estar bem alimentadas, ter uma moradia adequada, ser aceitas em seu habitat, sentirem-se amadas e úteis para que possam se auto-realizar e pensar em crescimento. A pessoa necessita ter bem-estar para que possa pensar no bem-estar das outras.

O ser humano possui uma capacidade de se comunicar exclusiva, que é a linguagem. Esta pode ser realizada no campo imaginário, no campo simbólico e no campo real. O ser humano possui necessidade de se comunicar com os demais através da linguagem à medida que está sempre tentando se superar. É um processo característico do homem e imprescindível à ética de viver bem, que visa preservar a vida e a qualidade de vida. Todavia isso só é possível quando as necessidades básicas fisiológicas, de segurança, de aceitação social, de auto-estima e de se sentir amado estiverem satisfeitas. Assim, as motivações para o crescimento e melhoria das condições de vida são essenciais ao desenvolvimento humano para que as pulsões de vida da humanidade não se deixem superar pelas pulsões de morte. Cada sujeito não pode pensar somente em seus interesses, desconsiderando radicalmente os interesses dos outros, porque querendo ou não cada um precisa das outras pessoas e o bem-estar futuro da humanidade depende que as pessoas aprendam a canalizar o amor para a vida e o ódio para o que for prejudicial à vida, pois todos possuem amor e ódio para oferecer.

Opinião:

Mas o que queria ressaltar com o texto e é a parte que mais me marcou da teoria de Maslow é a questão de que ,pra ter a motivação, as necessidades básicas precisam estar ao menos perto do nível satisfatório. Até pra que uma pulsão de morte motive o sujeito, que acho ser melhor que nenhumma motivação, pois a pusão de morte pode ser muito útil pra sobrevivência e principalmente pela luta por viver, além do sobreviver. É preciso a agressividade(como Lacan gostava mais dessa palavra q eu entendo como bem parecida com pulsão de morte) pra se livrar do que faz mal ao sujeito, nesse sentido é uma pulsão de morte direcionada pro que mata a vida(viajando).

Considerando não a minha condição privilegiada de sempre ter pelo menos comida, bebida, casa, cama, estudo(um mínimo) mas a condição da população tanto do país quanto do mundo, creio que bilhões não têm condições de pensar no que motiva ou não nem de viver de fato, ficando na triste luta do instinto natural de sobrevivência, respondendo com violencia de reflexo por não ter condição de pensar antes de agir, não ter estudo nutrição e uma história marcada de cenas violentas somente. Penso que mais ainda importante que saber o que motiva é ter condições humanas no sentido real desta palavra de ter motivação que não seja quase selvagem.

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Profundo desvio da vontade
Inundando a mente com pontadas
Lampejo de rivalidade
Atacando com inconscientes facadas

Intrusos instigadores de mal-estar
Impedindo um ledo descanso jubiloso
Fatores que não prezo em meu lar
Núcleo de fadiga que ataca impiedoso

Se ao menos pudesse desse mal livrar-me
Mas triste verdade o entremeia
Eis que é de meu ser uma parte
E corre, insolente, em cada veia

O narcisismo é da ordem do imaginário, do sem limites. O conceito de narcisismo introduzido por Freud tem uma conseqüência profunda: uma série de conceitos, tais como ego, defesa do ego, ideal do ego, “agente crítico observador”, etc., serão colocados em gravitação em torno da questão de narcisismo.O narcisismo primário é um processo normal, necessário, que ocorre num determinado momento do curso regular do desenvolvimento libidinal. Esse momento é situado por Freud entre o auto-erotismo e o amor objetal. Somente quando o ego se desenvolve, o indivíduo se torna narcisista. Esta primeira manifestação do narcisismo – denominada de narcisismo primário – é abandonada quando a criança, na impossibilidade de manter-se como seu próprio objeto de amor, volta-se finalmente, para um objeto exterior, desenvolvendo o que se chama de amor objetal.

Compreende-se então, que o narcisismo primário esteja em oposição ao amor objetal, pois somente quando ele termina o sujeito encontra-se em posição de fazer escolhas objetais. Dessa maneira, a superação do narcisismo primário coincide com a realização do desenvolvimento psícossexual. Entretanto, mesmo após uma escolha objetal ter sido feita, o indivíduo pode retornar a um estado narcisista. Esta volta acidental ao narcisismo original, num momento da vida em que se suporia estar ele definitivamente abandonado, foi denominado narcisismo secundário. O estudo do narcisismo secundário e suas produções patalógicas correlatas levou Freud a examinar, de maneira mais precisa, mecanismo da escolha objetal. Ele distingue, então, dois tipos de escolha – anaclítica e a narcisista.

Para Freud, o amor objetal de tipo narcisista é mais característico do sexo feminino. O narcisismo, manifestando-se poderosamente, inflexiona a escolha objetal em direção ao tipo narcisista. Em síntese, o tipo narcisista procura no outro sua própria imagem, ao passo que o tipo anaclítico procura um parceiro do tipo narcisista que o faz gozar de um narcisismo a que ele mesmo já renunciou.

O aparelho psíquico é estruturado, primeiramente, em três instâncias distintas: o inconsciente, o pré-consciente e o consciente. Entretanto,elas não constituem o único modelo psicanalítico construído com o intuito de compreender a noção de personalidade. Sem, portanto, abandonar a primeira descrição, mais tarde Freud construiu outro modelo, passando a trabalhar com as noções de id, ego e superego com a segunda teoria das pulsões.

O id é o reservatório de energia do indivíduo, ou seja, das pulsões e de tudo o que foi recalcado. É constituído por impulsos instintivos inatos, os quais motivam as relações do indivíduo com o mundo. É o responsável pelo processo primário, mecanismo de gerar imagens correspondentes às pulsões. Diante à manifestação de um desejo, forma, no plano do imaginário. o objeto que permitirá sua satisfação. Um desejo corresponde a uma carência que ,ao ser satisfeita, gerará prazer.

O id funciona pelo princípio do prazer. Busca a satisfação imediata das suas necessidades. O processo primário é sua tentativa alucinatória da satisfação imediata. As interdições virão do ego e do superego, pois o id sempre manterá o desejo de querer, e de querer a qualquer preço.

Inexiste o princípio da  contradição. Como não é dimensionado pela realidade, podem estar presentes desejos ou fantasias mutuamente excludentes dentro da lógica. Á medida que o a  contradição inexiste, toda as coisas são possíveis para do id.

É atemporal, existe a elaboração de uma dimensão única, vivida como presente. Quando sonhamos acordados transformamos em realizações presentes os desejos como perspectivas de realizações futuras.

Não é verbal. Funciona pela produção de imagens. Temos utilizado os sonhos para exemplifica-lo. Mas quando nos recordamos de um sonho, já efetuamos uma elaboração secundária sobre ele, ou seja, já o colocamos no domínio da linguagem.

Funciona basicamente pelos processos de deslocamento e condensação,  processos básicos do inconsciente. Na condensação, agrupamos, dentro de uma imagem características pertencentes a vários processos inconscientes. No deslocamento, as características de uma imagem são transferidas para outra, com a qual o sujeito estabelece relações como se fosse a primeira. O primeiro processo é mitológico; e o segundo, tirado dos casos clínicos de Freud.

Ao sair do útero, a criança precisa enfrentar o mundo. A luta inicial é pela manutensão do equilíbrio homeostático. A amamentação traz o leite que alimenta, as fezes e a urina dejetam os produtos já metabolizados e inúteis.

Logo após o nascimento, a estrutura sensorial mais desenvolvida é a boca. É pela boca que o sujeito se mobilizará na luta pelo equilíbrio homeostático. O seio é o primeiro objeto de ligação afetiva infantil e constitui, inicialmente, parte do objeto de desejo, sendo a mãe o objeto total. Neste momento, a libido está organizada em torno da zona oral.

A segunda etapa surge com a eclosão dos dentes, chamada oral canibalística. Caracteriza-se pelo surgimento da agressividade e é importante para o futuro desenvolvimento social do indivíduo.

A fase anal corresponde ao período de um a três anos e caracteriza-se pelo fato de a criança começar a perceber outros objetos, inclusive o pai. No início do segundo ano de vida, a libido passa da organização oral para a anal. No final da fase, a criança já se encontra bastante diferenciada, possui noção do que é dela e do que é do outro. As fezes são também muito importantes e assumem um papel central na fantasia infantil. Alguns autores as comparam ao valor do dinheiro.

No início da fase fálica, a criança distingue o pai e a mãe, mas não percebe a diferença sexual. A erotização passa a ser dirigida para os genitais, desenvolve-se o interesse infantil por eles. A presença do falo é que distingue o homem da mulher. A erotização genital cria a necessidade de buscar o objeto que permitirá a obtensão de prazer, ou seja, um elemento do sexo oposto. É aprendendo a amar em casa que a criança se tornará o adulto capaz de amar fora.

O complexo de Édipo refere-se a um drama vivido intensamente pela criança num período situado entre o terceiro e o quinto ano de vida. Em plena fase fálica, a criança transfere o interesse total de seu ego para o Falo, que passa então a representa-lo. A partir do falo onipotente, a criança passa a dirigir sua libido para a mãe. A mãe sadia, ao se revelar inteira para a criança, mostra-se também como mulher, isto é, como pessoa que procura num outro o amor genital, que a criança não poderá oferecer-lhe ou substituir. Esta recusa assinala que existe na mãe um espaço afetivo que a criança não pode preencher. É um espaço destinado a alguém outro. Esta recusa foi denominada por Freud como proibição do incesto.

As fantasias infantis de se casar com a mãe, de ser seu namorado ficam vedadas pelo pai. A criança configura o desejo de eliminar aquele que lhe impede o acesso à mãe. Fica então configurado o triângulo freudiano denominado complexo de Édipo. O drama edipiano tem como significado o destronamento do narcisismo infantil. A eliminação do rival, “o desejo de morte em relação ao pai” também fracassa, face à manutensão da “proibição do incesto”. O pai revela-se mais forte que o falo todo poderoso. A criança deverá, então, conformar-se à realidade ou transforma-la a fim de obter a satisfação dos seus desejos. A fissura ocorrida neste narcisismo é vivida pela criança por aquilo que se convencionou chamar de complexo de castração. A criança teme perder o que lhe é mais importante, o falo.

O menino vislumbra o poder do falo nas excitações genitais dirigidas à mãe. No entanto, as pretensões eróticas esbarram na presença paterna, que se revela como rival na disputa pela posse da mãe. Os sólidos laços que mantêm o interesse erótico da mãe pelo pai despertam um profundo ódio na criança. Este ódio se traduz por um desejo de morte do pai. Entretanto, ao triunfar sobre o desejo da criança, coloca-se face ao filho como um ser poderoso e indestrutível. Essa vingança toma a forma, no pensamento infantil, de uma possibilidade de castração. Assim, o menino pensa que a menina não possui o falo porque fora mutilada pelo pai. A figura paterna é temida e, ao mesmo tempo, admirada por sua força e poder. Daí o processo de identificação com o pai. Esta identificação permitirá ao menino resolver o conflito no qual ele se viu inserido. Tal identificação consiste em introjetar as qualidades essenciais do pai, transformando o Ego infantil em função dessas qualidades introjetadas. A criança passa então, ela mesma, a proibir-se aquilo que anteriormente o pai lhe barrava. Em suma, no menino, a castração é responsável pela superação do complexo de Édipo.

A menina vislumbra o poder do falo nas excitações clitorianas e, tal como nos meninos, é para a mãe que são dirigidos seus impulsos eróticos. O interesse pela região genital fará com que ela se interrogue a respeito da diferença anatômica dos sexos, até então despercebidas. A esperança de que o clitóris cresça e se transforme num pênis é logo abandonada. A esta desilusão segue-se uma hostilidade pela mãe, vista que ela foi incapaz de fornecer-lhe um pênis. Se no menino é a castração que faz superar o complexo de Édipo, na menina é pela castração que se inicia o Édipo.

A posição feminina é particularmente árdua: não só ela se vê obrigada a deslocar a zona erógena do clitóris para a vagina como também a trocar o objeto de amor materno pelo paterno. Finalmente, é identificando-se com a mãe que a menina passa a assumir uma identidade feminina e buscar, nos homens, similares do pai.

Com a repressão do Édipo, houve de início a repressão da energia sexual. É preciso que ela seja canalizada para outras finalidades. Estando os fins eróticos vedados, ela é canalizada para o desenvolvimento intelectual e social da criança. A este processo de canalizar uma energia inicialmente sexual em uma energia mobilizadora chamamos de sublimalção, mecanismo de defesa mais evoluído e é característico do indivíduo normal. Ao período que sucede a fase fálica, chamamos de período de latência, que se caracteriza pela canalização das energias sexuais para o desenvolvimento social, através das sublimações. Não há nova organização de fantasias básicas, a sexualidade que permanece reprimida durante este período, aguarda a eclosão da puberdade para ecludir.

Segundo Freud, o homem normal era aquele capaz de “amar e trabalhar”. Alcançar a fase genital constituiria atingir o pleno desenvolvimento do adulto normal. As adaptações biológicas e psicológicas foram realizadas. Desenvolveu-se intelectual e socialmente, sendo capaz de amar no sentido genital amplo. É capaz de definir um vínculo heterossexual significativo e duradouro, além de capacidade orgástica plena. A perpetuação da vida é sua finalidade última. Produzir é, num sentido amplo, sublimação do gerar. A obra social seria, então, derivada da genitalidade.

(continua…)

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