DuvidoLogias

Abril 6, 2008

Dúvidas? Quem não tem que me indique as respostas!

Arquivado em: psy — Tania @ 2:22 pm

* Às vezes a mente pede respostas e só o que tenho a replicar é indagar-lhe duplamente. Sem a pretensão de ser atrevida, porém com a curiosidade de quem usa ‘fraldas’ no conhecimento existencial.

. Quantas vezes uma criança cai antes de conquistar a destreza no andar?
. Quantas dores e sofrimentos sofre alguém que um dia considera ter uma vida feliz?
. Quão desagradável e pedante é um papo com um adulto que não conheceu a frustração?
. Como se sente um fracassado quando diz, com a melhor das intenções e vontade de acreditar em seu dito: agora vou vencer, vou subir nem que seja um degrau, ainda que esteja dizendo pela centésima vez, porque agora é diferente, quero realmente! E escuta das pessoas mais próximas e amadas: qualé? conta outra! Você nunca vai mudar, sempre diz e nunca teve resultado, muda o repertório!
. Esses dizeres são familiares a alguém?
. Quem garante que há repetição eternamente?
. Quem garante que a tendência à repetição vence a perseverança?
. Quantas pessoas venceram um objetivo na primeira tentativa?
. Qual o valor da vitória?
. Alguém gosta de perder?

- Teste sua capacidade de reflexão:
. O forte pode ser o mais fraco. Verdade ou mentira?
. O fraco pode ser o mais forte. Verdade ou mentira?
. O forte pode ser o mais fraco. Mentira ou verdade?
. O fraco pode ser o mais forte. Mentira ou verdade?

Que pena o fato de ser tão difícil me compreender… Sinto tanto por isso!
Estou, de certa forma, sozinha. Todavia a vida, a morte, as escolhas são singulares e solitárias. No que se refere à minha particularidade, a responsabilidade é toda minha e é meu direito assumí-la. Também estou ciente de que ninguém é obrigado a simpatizar-se com minha pessoa. Mas jamais abrirei mão de minha diferença e liberdade de opinião.

Dezembro 15, 2007

Teoria do caos- não é só um elemento, é a estrutura cultural.

Arquivado em: Sem Categoria — Tania @ 8:54 pm

No inicio, o individuo preocupa-se com o salario(necessidade fisica), depois passa a ficar antenado para os cargos, status. Em qualquer organizacao

O sujeito disciplina suas pulsões através da arte para contemplar o mundo. Hoje não há mais tempo pra isso, colocar os sentidos pra funcionar, fazer valer a força de trabalho - que é vendida por um salário,que deve ser sustentado por um valor de mercado.

Toda mercadoria sustenta-se por dois valores : o de uso e o de troca. O capital sustenta-se pelo valor de troca,”status”, fetiche da sociedade. Por isso gera tanto mal-estar, inseguranca.

Dezembro 13, 2007

O caos -1

Arquivado em: Sem Categoria — Tania @ 7:53 pm

O caos do trabalho na sociedade do espetáculo

 

No inicio, o individuo preocupa-se com o salário (necessidade física), depois passa a ficar focado para os cargos, status. Em qualquer organização há jogo de poder, o que determina quem ganha o quê. É muito desagradável a situação de um empregado que sabe que ganha mais e o outro que sabe que ganha menos. Afinal, como funciona a questão do salário na instituição, como ele é inserido na empresa? Por que um indivíduo ganha X ou Y?

O que se diz ser atualmente a pós-modernidade, expressão até engraçada, como se a velocidade tivesse chegado ao ponto de nos colocarmos numa sociedade do futuro (pós), pois a modernidade se modernizou tanto que pediu um apelido pra se diferenciar. Pois é, vivemos no futuro, sempre atrasados, milhões de informações a adquirir, “updates” de “gadjets”, mulheres, carros, linguagem, bares, viagens e por aí continua…

O que significa modernidade? Bom, estar atrasado por se viver o presente em detrimento da moda de se viver no “futuro” e estar sempre “updatado”? Talvez o apelido alta modernidade seja um pouco mais coerente, não?!

Toda mercadoria sustenta-se por dois valores: o de uso e o de troca. O capital sustenta-se pelo valor de troca, status, fetiche da sociedade. Por isso gera tanto mal-estar, insegurança. O valor de uso é praticamente inexistente no mundo do capital.

A força de trabalho é vendida por um salário, que deve ser sustentado por um valor de mercado. O cálculo ocorre pelo valor de troca, o dominante. Como isso tudo funciona?

Primeiro não se deve descartar todas essas mudanças profundas que vêm ocorrendo ou correndo no trabalho, nas relações, sexualidade, família, subjetividade e demais instituições vigentes.

Lembremos os principais processos de mudanças, tendências, realidades…

- Globalização da economia; a Era da Biologia; o triunfo do Indivíduo (este passa a ser o valor supremo, acima de qualquer coisa); o Renascimento das Artes; a Liderança das Mulheres; a Nova Sociedade de Serviços; a Nova Era do Lazer; o Envelhecimento da População Ativa; a Década do Cérebro; o Nacionalismo…

Subversão de valores:


. 1 - Auto-realização, imediatismo

↑2 - Status, aparências, fetiches

↑3 - Função, resposta à Demanda Social

↑4 - Segurança- financeira, espacial

↑5 - Necessidades fisiológicas

- O novo comportamento no ambiente; o fim da profissão; novas qualificações; exigência de ampliação do conhecimento e informação; a necessidade de atualização permanente; baixa da qualidade de vida com vistas à quantidade; busca incessante e exageradamente ansiosa de aperfeiçoamento pessoal e conseqüente aumento do julgamento crítico e cobranças por vezes de fazer tombar de tanto rir ou chorar…

Resultado? A produção do ser humano revolucionário, perdido no meio de tantas instituições reacionárias. Isso tudo mexeu com o fundamento da economia, implicando uma mudança radical na vida. Tudo se encontra pronto, porém caro, o consumo cresce assim como a demanda social de novas qualificações, ampliação do conhecimento e informação. O padrão de vida esperado é muito elevado, o povo não consegue pagar por essa qualidade de vida. Assim, a economia torna-se volátil, movimenta demais, criando toda a insegurança da perda da profissão, o imperativo de nunca poder cessar a aprendizagem. Surge, consequentemente, o “famoso” stress, depressão, transtornos de ansiedade, crises existenciais sobre qual o sentido da vida. As pessoas perdem qualidade de vida e passa a buscar apoio na espiritualidade, no aperfeiçoamento pessoal ou se refugiam no álcool, drogas, antigos hábitos nada construtivos…

A violência aumenta, assim também a população carcerária, a insegurança, a fragilidade e desconfiança dos indivíduos em todas as relações humanas. Se o capital não tiver ética, o resultado provável beira o fim do mundo. O que fazer com isso agora?

Muitas vezes o sujeito disciplina suas pulsões, energia, através da arte para se contemplar o mundo naquilo que não há valor de capital, não se troca, porém o deixa próxima à Natureza, a sua natureza humana de não ser perfeito, robô, da percepção de que por mais que conquiste nunca atingirá o ideal imposto e introjetado pelas informações em torrentes e falta de tempo pra parar, pensar, refletir, curtir a própria companhia, conhecê-la… Pimp! Uau! Eu também sou gente, não trocaria este momento de paz e completude por dinheiro ou emprego algum. O que fiz com minha vida? Deixei que pensassem por mim, decidissem o que é o melhor porque a maioria o faz? Logo eu, que tanto critico a sociedade, estou subsumido por ela e ensinando, cobrando assim dos meus filhos. Não, não preciso de tanto, meus filhos nunca pediram brinquedos nas datas de festa e nem assim… -Pai, o presente que eu escolhi foi ter você torcendo por mim no campeonato de futebol da escolinha quinta depois da aula. Pode? Puxa, eu achava um pouco estranho porque ele poderia pedir video-games ou o que quisesse, apenas disse claro, é “só” isso? …

Hoje não se tem tempo para sentir de verdade a vida, a família, colocar de fato os sentidos pra funcionar. Tudo gera em torno da mercadoria, insegurança, mal-estar. A mídia põe medo nas pessoas o tempo todo. Não é mais sociedade industrial, agora é a sociedade de serviços. Necessita-se trabalhar muito e ter boas férias. À medida em que parte da sociedade enriquece, perde-se a habilidade social. A solidão domina. As faces estão mais frágeis, desconfiadas até da própria sombra.

A criatividade, a imaginação, a vontade de mudar, inovar requer coragem, mas compensa com a grande abertura que ficou para os poucos que aproveitam a pouca concorrência nesse setor. “O perigo que o homem moderno sofre é pensar sobre a modernidade.” (Giddens)

Entendendo um pouco sobre o funcionamento da economia social que não se explica na TV, porém se impõe sutilmente, podemos notar a importância e objetivo do que se chama, atualmente, Desenvolvimento Organizacional(D.O.). No próximo!

→ sugestão de leitura: http://www.touteleurope.fr/fr/observatoire-europe/europe-en-idees/ouvrages/le-nouveau-modele-europeen.html?xtor=EPR-10 (artigo)

• livro: Le nouveau modèle européen (Anthony Giddens)

-outros: http://www.amazon.fr/exec/obidos/search-handle-url/403-9374811-7326815?%5Fencoding=UTF8&search-type=ss&index=books-fr&field-author=Anthony%20Giddens

Outubro 26, 2007

Psicanálise, Nerval, psicose ‘and so on’…

Arquivado em: Sem Categoria — Tania @ 9:42 pm

“às vezes um charuto é apenas um charuto”

“A agressividade é a tendência correlativa de um modo de identificação que chamamos narcísica e que determina a estrutura formal do homem e do registro das entidades características de seu mundo” (Lacan in:’L'agressivité en Psychanalyse’-194 8)

A aflição diante do risco de perder os outros é anterior à própria relação com os outros.

“A fonte de água pura deve poder ter seu curso seguido até as montanhas cobertas de neve.” (um ditado tibetano)

Entendo que devemos tentar despertar de tudo que causa sofrimento, e o que aprendemos devemos repassar pura e autenticamente para as outras pessoas, tudo que aprendemos de bom.

“Somos nossos próprios mestres, somos nossos próprios inimigos. Ética: autodisciplina, treinar a mente e as ações assim como as emoções.” (Buda)

Não acredito em bom tradutor ( ainda que de si mesmo) que não seja bom escritor. A tradução pode chegar a ser mais difícil, no entanto de menor valor sempre, que a autoria de uma obra. Escrita boa é a que perfura o âmago do leitor e desperta as mais puras sensações.

“(…)Sou os subúrbios de uma cidade que não existe, o comentário prolixo de um livro que ninguém jamais escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Sou o personagem de um romance ainda a ser escrito e flutuo, aéreo, disperso, sem ter sido, entre os sonhos de um ser que não soube me acabar.” (F.Pessoa)

A consciência da realidade crua e nua pode ser mais avassaladora que qualquer imaginário possível do que seja a morte. Viajando aqui para a época da Grande Guerra, sobreviventes eram acometidos por algo de vergonha por não terem morrido com os companheiros. Sentiam um enorme vazio de si e a vivência do limiar da morte, podridão e demais misérias humanas ao vivo e em cores. A maioria dizia que, não fosse pela família, preferiam ter morrido junto e acreditavam que o mereciam e seria o mais justo.

“Todos os escritores são vaidosos, egocêntricos e ociosos.” (George Orwell)

Viver / morrer lembra-me o estranho / familiar de Freud. Não estamos sempre vivendo e morrendo simultaneamente? No entando, ninguém concorda que sejam sinônimos. Dizem ser complementares. Eu, em minha loucura, diria: morte é vida vírgula. Morte é vida exclamação reticências. Pois se vida não é morte, vida é, ponto final. Ou que sentido faria?!

“Aquele que busca salvaguardar o equilíbrio narcísico por meio de um arranjo particular em sua relação com o outro, ou afasta-se do mundo dos outros vivido como uma ameaça para tão frágil equilíbrio, ou apega-se aos outros, demonstrando uma sede de objeto que só é saciada na presença daquele a quem incumbe a função de refletir a auto-imagem fugaz. Nesse caso, o que está em questão é a sobrevivência psíquica. A criação de uma representação de si mesmo remete-nos à necessidade imperiosa para o ser humano de transceder o hiato constituído pela alteridade, exigindo que o fora faça parte do mundo interno em algum lugar do psiquismo.” (João A. Frayze-Pereira)

Às vezes creio que meu viver seja escrever. Porém se escrevo arrisco-me a érder o siso nas profundezas do hiato entre as palavras e minha subjetividade. Fica uma angústia mortífera do desistir de escrever e o arriscado e não menos mortífero caos do sucumbir por escrever. Colapso! Break down! Beco da excelsa solitude! Narciso vitorioso e sem causa ou explicação. De todo modo, a derrota essencial da estrutura.

Por que não me ensinaram a brincar de amor? Ao menos por que proibiram-me de aprendê-lo espontaneamente e me fizeram crer que, por ligar-se à sexualidade e ato sexual, que era feio, perigoso e errado? Por que proibiram-me de tocar no assunto até o ponto em que eu me convecesse e tivesse desconfiômetro para parar de perguntar e fingir que não existe ? O mesmo em relação às minhas emoções, até que, paulatinamente, eu me alienasse sobre elas e consequentemente sobre mim. Por que com meu irmão tudo foi tão diferente, liberado e estimulado?

“…que eu desconstrua meus pequenos amores, a ciência de me deixar amar sem amargura, e que me dêem a enorme incoerência de desamar amando. E, lembrando-te, fazedor de desgosto, que eu te esqueça. ”

Tomei um fora bem quando estava imbuída de Shakespeare. Dramatizei a realidade. Caí de cabeça na loucura da paixão, ignorante.

“Havia inocência em seu sorriso, enquanto caminhava rente ao precipício.” (Herbert Vianna)

Qual a minha idade? Se eu for expressar tudo que guardo na memória que me está tão acessível, levarei muito mais tempo que os anos que tenho de vida. Lembranças intensas, nítidas, férteis, prazerosas, dolorosas, angustiantes, curiosas, vividamente tensas e emocionantes, como um mar em fúria, sem um ano sequer de remanso e brandura.

Agosto 23, 2007

Pra ninguém enjoar… Gérard de Nerval de novo

Arquivado em: Sem Categoria — Tania @ 8:06 pm

Parece que quanto mais se toma consciência da própria loucura, mais insuportável fica, maior o sofrimento - moral, mental, físico e,por vezes, espiritual. É meio paradoxal: percebe-se o distanciamento do senso comum, social e, ao mesmo tempo, uma aproximação da Verdade, a( in?!)desejada e nunca totalmente conhecida (mal?)dita ou (bem?)dita Verdade. Quão complexo!

“(…) parecia que eu sabia tudo e que os mistérios do mundo se revelavam a mim nessas horas extremas.” (Nerval)

O delírio, muitas vezes, é o menor dos males… Freud o analisa e sintetiza tão bem pelo estudo das memórias de Schreber. Uma tentativa de elaborar um “auto-mundo” tolerável, o instinto de sobreviver a um eu/outro odiado. Porém, uma tentativa malograda por Lei, por fado talvez.

“Morrer… dormir… dormir… sonhar, talvez… É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando ao fim desenrolarmos toda a meada mortal, põe-nossuspensos.” (In: “Hamlet”-1601)

Romântico ou trágico?! Os dois?! Bom, voltemos a Nerval e o tema loucura, morte, vida e afins…

Creio ter experimentado um delírio maníaco sobrenatural semelhante em certos aspectos ao de Nerval. Como se fosse a defesa (ainda que arcaica) última contra a extremosa desistência da ‘Santa Esperança’ (sempre supostamente a última a morrer, eu quis passar à sua frente) . Talvez possam dizer que eu queria acabar de vez com o jogo de xadrez do filme “O Sétimo Selo” exatamente por tê-lo assistido em companhia do meu amado rejeitante… Oh! Mas fado é fado, Lei é Lei. Malogro! A sensação não é em nada agradável, um pânico infinito de tortura iminente. Pensamentos invadem a mente como Verdades Abaolutas e Inquestionáveis . Cheguei a acreditar que todos os homens queriam me estuprar e todas as mulheres queriam me matar. Vale ressaltar que eu não fazia idéia de quem fosse Freud, nem tinha ficado sabendo da existência de algo chamado Psicanálise nesse tempo. Eu era adolescente fazendo intercâmbio. Pensava que tudo que acontecia estava relacionado à minha mente e todos sabiam o que eu pensava. O que as pessoas diziam era como se fossem códigos metafóricos para me enganar. Foi assim o começo de meu delírio maníaco de que eu era santa e tudo o que houvesse feito de errado era culpa da sociedade que fazia um complô para me corromper e destruir. Acreditei firmemente que o fim do mundo estava próximo. Salvariam aqueles que conseguissem se perdoar; os demais ficariam no eterno tormento do sentimento de culpa e sofrimento extremo. Já faziam mais de seis meses que eu estava na Oceania e minha família, meu la, aqui na América. O pior foi quando me lembrei deles no delírio, com medo de algum deles não se salvar. Assim, minha desorientação no tempo, espaço, linguagem apenas foi aumentando e queimando como fogo no peito.

Nerval, por sua vez, pensou ter se tornado”muito grande e que, inundado de forças elétricas, derrubaria todo aquele que de mim se aproximasse”(s.i.c.)

Pensei que era Filha de Deus, assim como Jesus foi o Filho. E teria uma missão tão dolorosa quanto a de Jesus. No fundo, eu só conseguia pensar que daria qualquer coisa e faria qualquer coisa para que meus pais se salvassem dentro do meu delírio.

Seria tudo isso minha esforçada malograda vontade de conceituar a tal da saudade? Talvez Freud explicasse, pena que não pôde me dizer. Ê saudade!!!

“Por toda parte morria, chorava ou agonizava a imagem sofredora da Mãe eterna”(Nerval

Em meu caso, acreditei que, para conseguir assegurar que toda minha família se salvaria, ou seja, perdoariam-se e seriam redimidos, eu teria que enfrentar o que fosse para mim o mais abominável tabu. Nem tente imaginar… O fazer e o pensar confundiam-se em minha cabeça. Temi mais por minha mãe, por ela ser mais sensível, tinha o hábito de não compartilhar seus problemas e preocupações, chorava escondida no banheiro e tinha uma tendência a auto-depreciação e baixa auto-estima. O pensamento acelerava, o sentimento mais ainda. Tinha também meu pai, já meu irmão era um anjo, santo como eu - confundi tudo, mas naquele momento era essa minha realidade. Sofri dias, semanas a fio incessantemente. Conjeturo que só sobrevivi devido aos momentos de euforia na parte maníaca de Santa Salvadora no delírio. Tinha a consciência limpa, sabia que estava diferente. Ao contrário do que todos apostaram e fizeram tudo quanto exame tivesse, não havia nenhuma substância química exceto as produzidas internamente. Eu não tomava nem coca-cola. Não fumava ou bebia e nunca tinha visto ou sequer pensado em outras drogas. Na época, jogava tênis competitivo e sonhava ser profissional. Bom, é por isso que lembro tão bem, minha consciência estava completamente clara. Nem fiquei feliz ao ver meus pais e meu irmão quando estes foram me buscar, eu não os queria naquele meu mundo cruel.

“Eu” dividia-se em ora demônio ora santa. Meu humor acho que quase se solidificou, ops, brincadeirinha… É que alternavam choros agudos e sufocantes com altas gargalhadas constantemente nesse período. Ninguém entendia, muito menos eu. Nem existia tal “eu”. Quem era esse “eu”? Nerval também sofreu essa sensação de divisão, auto-irreconhecimento e o sempiterno ‘Quem sou eu’ ?

“Então é verdade(…), nós somos imortais e conservamos aqui as imagens do mundo que havíamos habitado. Que felicidade sonhar que tudo o que houvéssemos amado existirá para sempre em torno de nós!” (Nerval)

Pensei que sofreria todas as torturas que lembrei da aula de História com a professora mostrando as imagens argh. Chorei e passei a mão nos olhos. Saía sangue. Bom, nem preciso contar o que minha fértil imaginação não elaborou com tudo isso, para descobrir muito depois que era apenas um capilar que havia se rompido por eu esfregar com tanta força os olhos.

Claro que não terminarei a história, pois eis que dela faço parte e, ademais, “sempre que alguém quer esgotar um assunto esgota a paciência do leitor”(Oscar Wilde).

Julho 20, 2007

Gerard de Nerval - nome artístico (1808-1855)

Arquivado em: Sem Categoria — Tania @ 10:19 pm

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PARTE I

Alguns trechos de sua obra inacabada Aurélia (devido ao seu suicídio) entre divagações ou, talvez, acrescidas de um pouco de imaginação.

“O sonho é uma segunda vida.(…)Os primeiros instantes do sono são a imagem da morte: um entorpecimento nebuloso toma nosso pensamento, e nós não podemos determinar o instante preciso em que o eu, sob uma outra forma, continua a obra da existência. É um subterrâneo vago que se ilumina pouco a pouco, e onde se distinguem da sombra e da noite as pálidas figuras gravemente imóveis que habitam a morada dos limbos. Em seguida, o quadro se forma, uma claridade nova ilumina e coloca em jogo essas aparições bizarras - o mundo dos espíritos se abre para nós.”

Um autor perspicaz, profundo e bastante interessante a meu ver.

No término da inacabada Aurélia diz: “É assim que me encorajei a uma audaciosa tentativa. Eu resolvi fixar o sonho e conhecer seu segredo. (…)Após um entorpecimento de alguns minutos, uma vida nova começa, liberada das condições de tempo e de espaço, sem dúvida semelhante àquela que nos aguarda após a morte. Quem sabe se não existe uma ligação entre essas duas existências e se não é possível à alma uní-las desde agora? (…)A partir desse momento, eu me dedicava a procurar o sentido de meus sonhos e essa inquietação influenciou minhas reflexões do estado de vigília. Eu acreditei compreender que existia entre o mundo interno e o externo uma ligação.”

Não parece um precoce profeta freudiano? Realmente, entender os sonhos ajuda a melhor lidar com as loucuras. Um afrouxamento, talvez, das amarras dum caos psicótico que, dependendo da utilização e cirstâncias envolvidas, possa entrar na polêmica “salvação” dos problemas relativos à estrutura via uma gambiarra de nó e o surgimento do Sinthoma(aqui como o conceito inventado por Lacan), assim como em Joyce ou Lispector. Atentando para que isso é apenas mais uma conjectura sem finalidade alguma de se impor como a melhor ou a verdadeira, longe disso.

“Aqui começou para mim aquilo que chamaria de derramamento do sonho na vida real.”

A escrita, para Nerval, não conseguiu aliviar o suficiente para evitar que se enforcasse em 1855, afogado num mar de trevas da miséria material e psicológica no qual sua lamentável e gigantesca melancolia o engolfou. Aurélia foi infelizmente interrompida, e uma mente brilhante obteve um triste, trágico, lancinante termo. Um gênio, um louco, um memorável humano, demasiadamente humano e sensível sofredor. Histórico homem admirável! Divagando em meus íntimos pensamentos, pergunto: ó Deus, se tu existes, não acha que colocastes este homem no mundo cedo demais?

“Uma dama a quem eu havia amado por muito tempo e que eu chamarei do nome Aurélia, estava perdida para mim. Pouco importam as circunstâncias desse acontecimento que deveria ter uma influência tão grande sobre minha vida. Cada um poderá procurar em suas recordações a emoção mais pungente, o golpe mais terrível desferido sobre a alma pelo destino; é necessário então decidir morrer ou viver…”

Reflito: ser ou não ser… morrer ou viver… Que indivíduo introspectivo do nosso tempo nunca pensou esses mistérios? Bom, eu já.

“Que loucura, eu me dizia, amar assim de um amor platônico uma mulher que não me ama mais. Isso é culpa de minhas leituras; eu levei a sério as invenções dos poetas e fiz para mim uma Laura ou uma Beatriz de uma pessoa ordinária de nosso século.”(s.i.c)

Penso que vivi algo parecido. Tomei um fora bem na época em que estava arroxada de provas estressantes e imbuída de Shakespeare. Dramatizei e idealizei exageradamente a realidade. Minha mente fora assaltada por estes pensamentos ligeiramente românticos: oh, que razão terei para viver agora se meu amado não me desejas mais? Mas a história não ficou apenas no drama: peguei todos os pequenos objetos mais significativos e estimados - embora de nenhum valor material - e acordei (ou não, poderia-se dizer) com a cabeça nas nuvens, caminhando até a faculdade como se nada nem ninguém existisse. Subi ao terrasso e proferi minhas últimas palavras, como se estivesse face a face ao idolatrado: sim, oh ser que cativastes minha alma como ninguém o poderia ter feito. Aceito tua rejeição e deixo contigo meu coração, pela eternidade. Adeus, amor! Joguei-me…

Julho 10, 2007

Metáfora Paterna e Metonímia do Desejo

Arquivado em: Sem Categoria — Tania @ 11:01 pm

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Segundo Lacan, o ser humano não nasce sujeito. Quando nasce, é como um corpo espedaçado, correspondendo esse período ao que Freud chamou de auto-erotismo, um corpo regido por pulsões parciais não unificadas. Até que ocorre uma “nova ação psíquica” (Freud), possibilitando a constituição do eu corporal como unidade.

 

O período em que ocorre essa nova ação psíquica Lacan chamou de Estádio do Espelho, constituído por três etapas. Na primeira etapa, a criança percebe a imagem real de um outro (a mãe), mas esta não é interiorizada. Na segunda etapa, a criança percebe a imagem da mãe apenas como imagem, a mãe é irrealizada. Já na terceira etapa, que corresponde ao primeiro tempo do Complexo de Édipo, ocorre a identificação à sua própria imagem, uma identificação à mãe como imagem. Essa é a identificação primária. A mãe funciona como um espelho para a criança, refletindo o que esta virá a ser. É uma relação extremamente próxima e necessária, que determinará toda dependência moral e afetiva do ser humano ao semelhante. O eu é, assim, formado como um precipitado de traços de identificação com o outro. A imagem da mãe chega de forma invertida, como de um espelho.

 

Contudo, essa relação simbiótica e fusional entre a mãe e o bebê precisa passar por um corte, o que acontece no segundo tempo do Édipo. No primeiro tempo, a mãe endereça seu desejo à criança e a toma como aquilo que lhe falta (o falo). O segundo tempo ocorre com a intervenção da função paterna fazendo um corte no desejo da mãe, fazendo este se endereçar para outro lugar que não a criança como falo. É através dessa operação que a criança poderá sair da posição de ser ou não ser o falo para a dimensão do ter ou não ter o falo, passando a buscar a identificação com quem supostamente tem o falo.

 

Todo desejo é suportado por uma falta, a qual é inserida no mundo da criança e simbolizada a partir da intervenção da função paterna. Esta lança o sujeito na alienação simbólica, porque fica ainda prisioneiro da palavra, da linguagem, que é comum a todos. Enquanto o eu nasce no campo do outro semelhante, especular, imaginário, o sujeito nasce no campo do Outro da linguagem, da função paterna, da Lei contra o incesto, que ordena as relações sociais. O desejo é sempre desejo do Outro, pois o que o sujeito deseja é determinado por sua relação com a função paterna. O sujeito é sempre marcado pelo Outro. Surge aí um paradoxo: embora o sujeito seja determinado por algo fora dele, ele precisa responsabilizar-se pelo seu desejo.

 

Lacan chama objeto a aquilo que causa o desejo. Esse objeto a é o que não está inscrito, aquilo que fura, falta e não pode ser representado. É um resto pulsional e tem a ver com a pulsão de morte. A falta jamais é toda preenchida, ficando o desejo para sempre insatisfeito. O sujeito busca realizar esse desejo através do deslocamento metonímico na demanda, na tentativa de satisfazê-lo. É a partir da falta que o sujeito faz sintoma. Chama-se deslocamento metonímico porque o sujeito toma o objeto substitutivo como se fosse o objeto original perdido, o qual jamais é encontrado todo. Uma parte do objeto de desejo é tomado como se fosse o desejo todo.

 

Um paradigma do acesso ao registro simbólico é a brincadeira do fort-da explicitada por Freud. Através dessa brincadeira, a criança faz uma renúncia pulsional, suportando as ausências da mãe e utiliza como recurso simbólico para lidar com a separação uma encenação por ela mesma do aparecimento e retorno do carretel, este simbolizando a mãe.

Julho 9, 2007

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Arquivado em: Sem Categoria — Tania @ 11:14 pm

Essa renúncia pulsional é fundamental para sua inserção na cultura social. A criança precisa suportar o fato de que ela não é o falo da mãe, ou seja, não é o único e exclusivo objeto do desejo da mãe. Poderia perguntar-se: por que a criança parece ter mais satisfação do que angústia com a brincadeira? Afinal, a mãe está ausente. Porque a criança sai da posição passiva para a posição de sujeito, ela passa a ter controle da situação, podendo, assim, fazer a renúncia pulsional. A criança constrói um controle simbólico do objeto.

 

O carretel é um substituto metafórico da mãe, possuindo como traço comum o fato de estar presente ou ausente. É o Pai simbólico que nomeia a ausência da mãe (se a mãe não está, é porque está com o pai). Tudo que dá notícia do corte da relação fusional com a mãe é identificado ao Pai, aquele que inaugura a cadeia de significantes, a cadeia falada da demanda, e também inaugura o inconsciente.

 

A demanda é a necessidade desnaturalizada pela interpretação. A dimensão da falta é constitutiva do sujeito. Para ter representação, é preciso uma falta. É preciso que a coisa se perca para poder ser representada. Assim,a palavra é a morte da coisa (Lacan). A criança usa o significante da forma como pode representar algo. A palavra representa a coisa e reapresenta a falta.

 

A partir da castração (a operação em que a função paterna corta o desejo da mãe), a criança (agora mediada pela linguagem), passa do desejo de ser o falo para o desejo de ter o falo. É o terceiro tempo do Édipo. O desejo tenta realizar-se no deslize pela cadeia metonímica da demanda, buscando articulação nas substituições. É o objeto a , representante do objeto perdido para sempre que causa o desejo, que marca a falta relativa à questão fálica.

 

Toda operação de linguagem é não toda, sempre falta algo. Como diz Guimarães Rosa, muita coisa importante falta nome. E é essa falta primordial que vai estruturar o sujeito.

 

Os registros imaginário e simbólico são recursos para se lidar com a energia pulsional. O que não é coberto nem pelo imaginário nem pelo simbólico é o real.

 

As demandas tentam nomear, à revelia do sujeito, o desejo original. Numa análise, não se deve responder à demanda do sujeito, ou se estaria tamponando a falta.

 

Assim, é a metáfora paterna que constitui a estrutura do sujeito: na neurose por sua incisão através do recalcamento; na psicose por sua forclusão; e na perversão por um desmentido. O sujeito é, então, um “parlêtre”, como diz Lacan, um ser de linguagem.

 

Referência bibliográfica:

- DOR, J. Introdução à leitura de Lacan. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989

 

- QUINET, A. Teoria e clínica da psicose. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997

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